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Relutei muito em trazer a discussão política ao blog, que encaro como algo mais pessoal. Deixei as questões e críticas ao Facebook durante toda a campanha. Mas, terminada a eleição, resolvi fazer um registro histórico aqui sobre o que penso hoje. E sobre como vejo a política, as eleições de 2012 e o Brasil. Mas algo bem pessoal mesmo.

Ontem foi um dia histórico. Marcou o triste fim de carreira de um político que queria a qualquer preço ser presidente da República. Que mesmo com todo o apoio da grande mídia, nunca nem chegou perto disso em duas tentativas frustradas (2002 e 2010).  Um político que abandonou sua própria trajetória, e os ideias do seu partido, e abraçou a direita mais conservadora, ocupando o espaço que um dia foi do DEM/PFL/ARENA. Um político que praticamente recriou no país o Tea Party norte-americano e que, com o apoio da mídia, alimentou o ódio e dividiu o Brasil.

Antes de implodir de forma antidemocrática as prévias do PSDB no início do ano e, assim, se impor candidato à Prefeitura de São Paulo, José Serra comparava a atual campanha a um funeral. Se vencesse, receberia honras de herói. Se perdesse, seria “enterrado como indigente”. Eis o final dessa história.

Lançado com pompa como última esperança de salvar o PSDB (o anúncio da candidatura foi claramente comemorado pela grande mídia), o grande problema da campanha de Serra não foi a derrota. Mas alguns fatores bastante preocupantes. Primeiro, o tamanho da diferença a favor de Haddad. Superior às previsões de qualquer “analista político” da grande mídia, a vantagem do candidato do PT escancara um adversário que nunca se mostrou competitivo. E, mais do que isso, que ultrapassou os 50% de rejeição, algo que só Maluf e Collor haviam conseguido numa eleição paulistana. José Serra encerra sua carreira política assim, no mesmo grupo de dois políticos abominados pelo eleitorado brasileiro. Isso não se pode discutir.

Vale lembrar que, ao contrário do que a mídia nos faz crer, Serra nunca foi um campeão de votos. Para cargos do executivo, mais perdeu do que ganhou. Ao todo, foram três derrotas para prefeito de São Paulo (quarto colocado em 1988, terceiro em 1996 e, agora, segundo em 2012) e duas para Presidente do Brasil (segundo colocado em 2002 e 2010), contra apenas uma vitória para Prefeito (2004, mais pela rejeição pessoal da Marta alimentada pela mídia do que por méritos próprios) e uma para Governador (2006, esta sim, uma grande vitória, ainda no 1o turno). Ou seja, 5 derrotas contra apenas 2 vitórias. Goleada.

A mídia também nos faz crer que São Paulo é e sempre foi uma fortaleza do PSDB. Mentira. Em eleições paulistanas, o partido conquistou o poder apenas com Serra em 2004. Foi derrotado com Serra em 88, com Fabio Feldman em 92, com Serra em 96, com Alckmin em 2000, novamente com Alckmin em 2008 e, agora, com Serra em 2012 – aproveite para reparar também como o PSDB não renovou seus quadros, limitando-se basicamente a alternar Serra e Alckmin.

Apenas no governo do Estado os tucanos acumulam vitórias desde 1994. Mas a mídia esquece que em 1998, quando Covas conseguiu se reeleger e iniciou este domínio, foi a muito custo, numa das disputas mais acirradas da história do país. As pesquisas apontavam um segundo turno entre Maluf e Rossi. Surpreendentemente, Covas foi para a disputa com Maluf após ficar apenas 40 mil votos à frente de Marta Suplicy. Rossi ficou em quarto. No 2o turno, o tucano disputou voto a voto com Maluf. Ambos estampavam outdoors ao lado do então presidente FHC. Covas ganhou por pouco. Mais pela crítica ao “rouba mas faz” do que pela aprovação do seu Governo, que não era das melhores. Esta eleição fez com que o PSDB adotasse, a partir de então, esse discurso da moral e da ética, sempre destruindo o adversário, fosse ele quem fosse, em detrimento das discussões de propostas e projetos. Alguns outdoors de Covas mostravam o rosto de um menino e a frase: “Mamãe, é certo roubar?”. Outros mostravam a foto de Raul Cortez e a frase “Eu voto Covas”. Foi assim que ele ganhou.

Voltando a 2012, no fim do primeiro turno, o jornalista da Folha/UOL Fernando Rodrigues disse que, não importa quem saísse vecedor no 2o turno, caso a diferença fosse de até 5 pontos, ambos, Serra e Haddad, poderiam se considerar vitoriosos. Se a diferença fosse maior, significaria uma grande derrota política daquele que não conquistasse a prefeitura. O que ele diz agora, que Serra perdeu?

Os “analistas políticos” da grande imprensa erraram e erram muito. Mais torcem do que avaliam. Iniciaram a campanha de 2012 deflagrando uma grande derrota para o PT e uma grande vitória para Aécio e o PSDB. Davam a eleição de José Serra como garantida. No início da disputa, gargalhavam com os 6% de Haddad nas pesquisas, chamando-o de poste como já haviam feito com Dilma.

Foram pegos de surpresa com o fenômeno Russomanno. Diziam que o paulistano torcia o nariz para Haddad e Serra porque eles representavam o velho e o povo estava cansado da polarização PT-PSDB. Não, Haddad era desconhecido e, Serra, desprezado.

Diziam que o paulistano era conservador, por isso votava em Russomanno. Vamos lembrar que São Paulo já elegeu duas prefeitas mulheres, sendo uma nordestina e outra sexóloga, um negro e um gay não assumido. Não sei até que ponto esse conservadorismo do eleitor paulistano é real. Foi neste eleitorado que o PT de esquerda e o PSDB social-democrata nasceram.

Após o 1o turno, os analistas tentaram se convencer de uma vitória irreal do PSB (suas mais de 400 conquistas municipais se concentraram em Pernambuco e Piauí; fora dali, ganhou com a força ora do PSDB, como em BH, ora do PT), para tentar ocultar o verdadeiro vitorioso: o Partido dos Trabalhadores.

Assustou a falta de noção de realidade de Serra e da grande mídia. Primeiro, ao acreditarem que poderiam definir o voto do eleitorado como a Globo fez no 2o turno de 1989 e no primeiro de 2006. Usaram o julgamento do Mensalão como arma, acreditando que isso bastaria para uma derrota do PT e de Lula. Em segundo, ao acreditarem que convenceriam o paulistano de que as gestões Serra e Kassab foram ótimas. Terceiro, ao não perceberem os verdadeiros motivos da aversão a Serra.

Fez-se crer que ele estava sendo punido por ter renunciado (à prefeitura, em 2006, e ao Governo, em 2010), quando na verdade o povo estava renegando os 8 anos de Serra/Kassab e querendo a volta das conquistas do governo Marta Suplicy, recentemente elevado como o melhor da história de São Paulo por pesquisa do Datafolha. Sim, Marta foi eleita pelo povo paulistano a melhor prefeita que a cidade já teve. Aliás, ela terminou o mandato com quase 50% de aprovação.

O PSDB do Serra, um partido bem diferente daquele PSDB que nasceu em 88, o PSDB do Covas e do Montoro, nunca apresentou uma proposta de país nem mobilizou a sociedade. Nos últimos anos, se baseou sempre em bater no PT (da Martaxa, do Mensalão, do Enem que deu errado) e em abrir discussões religiosas (aborto, kit gay). Veja a posição do Serra com relação à criminalização da homofobia: http://www.youtube.com/watch?v=QT7VG4-QftA

A oposição é de grande importância na democracia. Ela fiscaliza, questiona e contrapõe as posições do governo. Antes de pedir uma alternância de poder, que eu não considero uma base da democracia, a mídia deveria cobrar uma oposição mais propositiva e forte. O DEM sumiu e o PSDB parece ir pelo mesmo caminho. O PSD de Kassab nasceu centrista, integrando a base de apoio do governo Dilma. O PSB de Eduardo Campos, hoje exaltado como alternativa ao PT em 2014, é da base governista e se fortaleceu exatamente por isso.

2012 é um marco político por tudo isso. A grande mídia percebeu que perdeu seu poder. O eleitorado mostrou que está mais consciente do que muitos pensavam. E o PSDB se livrou de José Serra.

No entanto, me assustam as notícias de que Serra será presidente do partido (http://www1.folha.uol.com.br/colunas/janiodefreitas/1173500-serra-presidente.shtml). O PSDB deveria aproveitar este momento para se renovar. Tome como exemplo o PT, que sofreu uma séria crise com o Mensalão em 2005. Qual foi o caminho escolhido por Lula? Afastar políticos históricos e trazer especialistas que antes só andavam pelos bastidores dos governos e nunca tinham enfrentado as urnas. Assim, elegeu Dilma presidente em 2010 e Haddad prefeito de São Paulo agora em 2012. E a tendência é que lance o Ministro da Saúde, Alexandre Padilha, ao governo de São Paulo em 2014.

O PSDB deveria dar mais espaço a Beto Richa, Bruno Covas e tantos outros nomes mais novos e, provavelmente, com ideias mais frescas. Deveria abandonar a oposição desenfreada ao PT e criar uma alternativa a esse governo, com propostas e projeto reais. Aécio Neves, o playboy carioca que se diz mineiro, nunca se ofereceu ao país de verdade. Ele ainda não disse a que veio e nem demonstra vontade de abandonar todos os prazeres da vida em troca da Presidência. Ele não será candidato a presidente em 2014. Pode anotar e me cobrar.

A tendência é o Partido dos Trabalhadores, o que mais cresce no Brasil desde a volta da democracia, continuar surfando nas ondas da inclusão social e da diminuição das desigualdades. Qualquer partido que ambicione o poder precisa entender isso. A inclusão e a distribuição de renda são caminhos irreversíveis.

O rancor, o negativismo, a falta de sensibilidade e a desconexão com a sociedade, que caracterizaram o PSDB dos últimos anos, não têm mais espaço. Quem continuar por este caminho vai continuar apanhando nas urnas.

Sempre acompanhei os mais diversos blogs e sites, de direita e de esquerda. Foi com base nessas leituras, em análises particulares e em experiências e memórias pessoais, que escrevi este texto. Agradeço a você que chegou até o final e a todos aqueles que me inspiraram e contribuíram, de alguma maneira, para que ele fosse feito.

Eu me considero alguém com memória. Ainda mais com relação à política. Não me venha com frases feitas sem sentido que eu rebato com fatos históricos que destróem estes falsos argumentos.

Já me chamaram de petista, de comunista e de radical. Não me considero nada disso. Eu sempre busquei alternativas mais sociais, que busquem o bem comum. Já votei em Covas, em Ciro, em Montoro, em Genoíno, em Alckmin, em Marta, em Lula e em Dilma. Nunca votei em Serra ou FHC. Já fui filiado ao PSDB, mas hoje não sou filiado a nenhum partido político. Não boto a mão no fogo por ninguém, nem voto em qualquer político de olhos fechados. Mas também não acho que todos são iguais. Aliás, sei disso.

Já fiz boca de urna quando ela era permitida, já trabalhei com marketing político, já acompanhei os bastidores do maior jornal do país e de um dos maiores partidos do Brasil. Não sou inocente nem leigo.

Tudo o que eu quero é um país mais igual, democrático e feliz. Um país que dê as mesmas oportunidades a todos. Um país com justiça social e sem desigualdade.

Que venham os bons próximos anos.

Sobre Haddad, dou a palavra ao Chico Bicudo:

http://oblogdochico.blogspot.com.br/2012/10/meu-voto-em-haddad.html

Sobre o PSDB:

http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/serra-e-a-imagem-do-psdb-2

Sobre a compra de votos na reeleição:

http://www.rodrigovianna.com.br/outras-palavras/do-bau-o-escandalo-da-compra-de-votos-da-reeleicao.html

Sobre mensalão, o que eu penso está aqui:

Aqui:

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/poder/58791-dois-pesos-e-dois-mensaloes.shtml

Mais:

http://www1.folha.uol.com.br/colunas/janiodefreitas/1163549-deduzir-as-deducoes.shtml

Ainda mais:

http://www1.folha.uol.com.br/colunas/janiodefreitas/1165256-a-igualdade-dos-extremos.shtml

E aqui:

http://exame.abril.com.br/brasil/politica/noticias/psdb-tem-o-maior-numero-de-barrados-pelo-ficha-limpa

Aqui também: http://camaraempauta.com.br/portal/artigo/ver/id/2463/nome/TSE_divulga_ranking_da_corrupcao_por_partido

 

Sinto um novo ar em São Paulo e no Brasil. Que venham os novos tempos.

 

 

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