Lembro quando Terrence Malick voltou a dirigir em 1998 (“Além da Linha Vermelha”) depois de 20 anos afastado. Quase todos os atores de Hollywood quiseram estar no filme. Só que a maioria deles, como John Travolta e George Clooney, acabaram virando pontas na ilha de edição. O próprio Sean Penn, que teoricamente era o protagonista, perdeu o posto durante a montagem para Jim Caviezel, Ben Chaplin e Elias Koteas. Pra você ter uma ideia, as cenas de Billy Bob Thornton, Martin Sheen, Gary Oldman, Bill Pullman, Jason Patrick, Viggo Mortensen e Mickey Rourke foram TODAS cortadas. Eles filmaram mas não estão no filme. Porque Malick é assim. O filme dele nasce nas filmagens e, principalmente, na ilha de edição. Não no roteiro.

Nas filmagens de “Além da Linha Vermelha”, surgia um crocodilo ou um pássaro e ele parava a cena que estava fazendo só para filmar os animais, que nem estavam no roteiro. E lá estão eles no filme. Nada de Gary Oldman, mas o crocodilo está lá. É outro tipo de cinema, é outro tipo de narrativa.

Minha namorada da época e amigos detestaram. Dormiram. Sofreram durante os longuíssimos minutos da obra.

Em 2005, quando vi “O Novo Mundo” num cinema de Santos, a pessoas abandonavam a sala ainda no começo, porque não entendiam aquela sucessão de cenas com locução e trilha sonora. Esperavam uma nova visão da história de Pocahontas, com cenas de ação estreladas por Colin Farrel e Christian Bale.

Ano passado, no maravilhoso “A Árvore da Vida”, um dos grandes filmes da minha vida, o pessoal de bom gosto cinematográfico, mas que mal conhecia Malick, foi pêgo de surpresa. Vários amigos meus que nunca tinham visto filmes do diretor não entenderam nada e detonaram a obra, chegando a chama-la de PowerPoint cinematográfico.

Uma pena. Malick é dos diretores mais autorais e diferenciados do cinema atual. Ele tem uma narrativa (ou falta de) própria. Ele não conta histórias. Conta sentimentos e pensamentos. É filme para espectadores ativos e não passivos. Para o filme funcionar, você precisa trabalhar com ele. Precisa pegar as frases e imagens e faze-las conversar com suas próprias histórias. O filme nasce daí: do compartilhamento da obra do diretor com a vida do espectador. Em tempos interativos, não existe cinema mais atual que este.

Sem falar nas câmeras baixas, no sol próximo ao horizonte, nas caminhadas de seus personagens por campos, sempre em contato com a natureza.

Malick é gênio. Malick é poeta. Malick é dos grandes diretores da história do cinema.

Claro que ele não é comercial, claro que o público mais popular vai torcer o nariz. Mas você que tem um bom gosto pelo diferente e pelo sensível, dê uma chance a Malick. Não espere uma narrativa, não espere uma história. Busque um poema que fale com você.

“The only way to be happy is to love. Unless you love, your life will flash by.”

“The nuns taught us there were two ways through life – the way of nature and the way of grace. You have to choose which one you’ll follow.”

“Tell us a story from before we can remember.”

“Help each other. Love everyone. Every leaf. Every ray of light. Forgive.”

“Lord, Why? Where were you? Did you know what happened? Do you care?”

“I wanted to be loved because I was great; A big man. I’m nothing. Look at the glory around us; trees, birds. I lived in shame. I dishonored it all, and didn’t notice the glory. I’m a foolish man.”

“You are not to call me “Dad”. You will only call me “Father”.”

“Brother. Keep us. Guide us. To the end of time.”

Aqui vai o trailer de seu novo filme. Amém.