Não sou fã do musical “Les Miserables”. Não gosto das músicas nem do modo que a história de Jean Valjean é contada. Também não sou fã de “O Discurso do Rei”, filme “OK” e divertidinho do diretor Tom Hooper. Acho burocrático, acadêmico e clichê. Pois, depois de assistir a “Os Miseráveis”, tenho que dar o braço a torcer: ele conseguiu fazer uma belíssima adaptação do musical. Que merece cada uma de suas indicações ao Oscar.

 

Muitos musicais não funcionam no cinema. As interpretações forçadas, os diálogos em estrofes e, principalmente, os cenários artificiais atrapalham o desenvolvimento dramático. Ou se assume o universo artificial, como em “Moulin Rouge”, ou se corre o risco de escorregar feio, como em “Chicago” e “O Fantasma da Ópera”. Pois, Hooper conseguiu algo novo em adaptações de musicais para o cinema: trouxe realismo.

 

Sim, ele conseguiu tornar uma cena em que um ator canta em vez de falar em algo real. Em algo crível. Em algo verdadeiramente humano. Em algo carregado de emoção. Ele nos transporta para a história e nos faz viver os sofrimentos, dramas, paixões, dúvidas, ódios e alegrias dos personagens.

 

Isso fica evidente na cena que deve dar o Oscar à Anne Hathaway. Em um close de mais de dois minutos, quase um monólogo, ela canta “I Dreamed a Dream” de forma fantástica, aos prantos, expondo todo o sofrimento e desespero de Fantine.

 

Grande parte desse realismo se deve, além das belíssimas interpretações do elenco, ao fato de Hooper ter colocado os atores para cantar ao vivo, durante as filmagens. Normalmente, em musicais, as canções são gravadas em estúdio e depois dubladas pelos atores nas cenas. O resultado desta inovação é fantástico. Perde-se certa qualidade musical – sim, algumas vezes os atores desafinam – mas ganha-se em dramaticidade.

 

Há algumas escorregadas, é verdade, como uma Paris claramente digital e, principalmente, as cenas em que Russel Crowe aparece caminhando em parapeitos. Isso tira certo realismo do filme, mas não chega a destrui-lo.

 

Hopper também inova na fotografia e na mis-en-scène, com enquadramentos atípicos para o gênero, lentes grande-angulares, contre-ploungés e muita movimentação de atores. Fica a impressão de que esta história nunca poderia ter sido encenada nas limitações de um palco de teatro.

 

E, finalmente, eu não poderia deixar de citar a atuação de Hugh Jackman, a alma do filme. O ex-Wolverine atinge aqui seu auge no cinema, liderando um elenco iluminado e guiando a platéia pela história de Jean Valjean. Não vai ganhar o Oscar, mas a indicação é merecidíssima. A Academia adora homenagear astros em seus melhores momentos.

 

“Os Miseráveis” é Hollywood na sua melhor forma: grandes estrelas cantando e interpretando de forma sublime, cenas épicas, músicas de arrepiar (sim, elas ficaram lindas) e muito, muito sentimentalismo. São quase 3 horas de filme – muitas cenas são cansativas – mas vale a experiência. Quem gosta de um belo espetáculo hollywoodiano não pode perder.