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Andrew Bird *****

No último sábado, realizei um sonho relativamente antigo. Consegui, finalmente, ver um show do Andrew Bird. Esta noite histórica aconteceu num Cine Jóia bastante cheio, com uma platéia que mesclava iniciados com gente que desconhecia o cantor. Chorei em “Plasticities”, um música marco da minha vida, e ainda fui agraciado com “Fake Palindromes”. Em vez de escrever a respeito, resolvi copiar aqui uma crítica que gostei muito de ler.

 

Setlist

  1. Andrew Bird alone on stage intro
  2. Andrew Bird joined by the band on stage
  3. (TV Show Theme)
  4. Encore:
  5. Encore 2:

Andrew Bird em São Paulo | Crítica

Uma amostra do silêncio virtuoso no Cine Joia

Pedro Couto
25 de Fevereiro de 2013

andrew-bird
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Crédito: Popload

Em 1931, Aldous Huxley afirmou em um ensaio sobre música: “depois do silêncio, o que mais se aproxima de expressar o inexprimível é a música“. O hiato sonoro é tão imprescindível na apreciação musical que na audiofilia se usa o termo “silêncio negro” para definir a riqueza da lacuna entre os sons. Andrew Bird, que fez neste sábado (23/02) no Cine Jóia (SP) seu último show da turnê brasileira, mostrou na prática e com maestria a ideia de Huxley.

O Cine Jóia é uma casa de shows que utilizou da estrutura de um cinema dos anos 50 focado no público japonês (ele está na Liberdade, bairro mais nipônico do ocidente) para criar uma experiência bem diferente. O local é pequeno, o chão inclinado, comporta cerca de 1.500 pessoas e o palco é relativamente curto, mas bem alto. O resultado é um bom show mesmo há metros de distância.

Coincidentemente, foi no Japão que Andrew Bird foi buscar sua base teórica. Desde muito criança, teve sua educação musical através do método Suzuki. O violinistaShinichi Suzuki defendia a ideia de aprendizado da música com técnicas parecidas com a assimilação da língua materna – como uso de brincadeira e um clima saudável que se distancia da noção dos princípios racionais de harmonia e um conhecimento sóbrio e enfadonho da arte dos sons – e sua ausência.

A vinda do músico ao Brasil fez parte de um crowdfunding. Foram selecionados 12 cidades de países latinos e as primeiras que vendessem 250 ingressos ganhariam o direito de ter o show. O Brasil conquistou três: Rio de Janeiro, Florianópolis e São Paulo.

Em meio a um público que fazia jus à legião indie que acompanha o músico – garotas que pareciam ter saído do Factory de Andy Warhol, mulheres que vieram direto de uma vernissage, rapazes que pediam prosecco em mini-garras e muitas camisas listradas -, Andrew Bird subiu sozinho o palco à meia-noite

Ao abrir com “Belles” – que teve um problema com o violino, mas logo foi consertado – e seguir com “Hole In The Ocean Floor”, ambas de Break It Yourself (2012), Bird mostrou sua desenvoltura solitária para lidar com várias texturas. Ora o violino é usado da maneira tradicional, com um arco, soando um Grappelli ainda mais curioso; ora é empunhado como um ukulele. São criadas bases gravadas na hora que se repetem em loop. Andrew ainda utiliza uma guitarra, um metalofone e seu afinadíssimo assovio para criar uma casa cujo inquilino é o que há de mais importante em sua música: o silêncio entre os sons. O músico parece incluir todas as notas e os belos solos para criar a tensão necessária para a valorização do silêncio negro.

Não à toa, parte da platéia pedia silêncio para os pontos de conversação. Apesar da soberba arrogante do pedido-ordem, infelizmente, era necessário tal ato para que se respeitassem o concerto.

Depois de encerrar o set acústico com “Why?”, a banda que acompanha o músico sobe o palco e já inicia com a quebrada “A Nervous Tic Motion of the Head to the Left”. Engana-se quem imagina que o silêncio não seria mais valorizado com a entrada de outros três elementos. Os arranjos são colocados na beirada do abismo, criando um quase-silêncio tão tenso quanto sublime.

É nessa riqueza de texturas que o show se mantém. “Headsoak” parece ter saído de um disco do conterrâneo de Andrew Bird, Sam Cooke (ambos de Chicago); “Orpheo” é ligeiramente dançante e possui loops que poderiam vir de alguma rua da Turquia; depois de “Imitosis”, “Dark Matter” justifica parte da adoração indie, com uma pegada característica.

“Give It Away” inaugura um novo set no show. Dessa vez, Andrew Bird e os outros músicos (exceto o baterista) se colocam em volta de um único microfone condensador (daqueles de estúdio). Tudo parece remeter ao lendário Newport Folk Festival e tantos outros eventos da mesma estirpe. “Mx Missiles” inspira muitos a levantarem os seus smartphones para registrar; “Something Biblical” consegue ser intimista nos arranjos para, mais uma vez, engrandecer o silêncio impecavelmente belo e virtuoso – é daquelas orações que se faz calado. Essa estrutura se mantem por mais uma música: a divertida “Prof. Socks”, que Andrew informou ser novíssima e feita para um seriado de TV homônimo.

De volta aos instrumentos elétricos, eles tocam a belíssima “Three White Horses”, que é executada com uma melancolia que te obriga a fechar os olhos para aguçar a audição. Na introdução de “Skin is, My”, Andrew Bird diz que a canção foi uma de suas primeiras composições (ela é do disco The Mysterious Production of Eggs, de 2005) e que conta com uma influência brasileira. Até o fim do show no “tempo regulamentar”, ainda tocam “Tenuousness”, “Plasticities”, “Fatal Shore” e “Tables and Chairs”.

Para o primeiro bis, Andrew Bird escolheu “Fake Palindromes” e “Don’t Be Scared”, esta última uma cover de “The Handsome Family”.

No segundo bis, Bird e companhia voltam para o microfone condensador e criam um ambiente “Peter, Paul and Mary”. Começam com “If I Needed You”, que poderia ser uma canção dos tempos de Sun Records de Johnny Cash – mas é uma cover de Townes Van Zandt. Para fechar sua passagem por São Paulo e se despedir do Cine Jóia, decide por “Going Home”, do lendário bluesman Charley Patton.

A apresentação de Andrew Bird foi para iniciados. Aqueles que não o conheciam ou que não captaram a relação do músico com o espaço musical podem ter achado o show meio desinteressante. Todavia, na saída do show não havia nada senão semblantes de felicidade.

*Pedro Couto é jornalista e escreve para o Dylanesco, site especializado em Bob Dylan.

Link original.

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