Joe Wright é o novo especialista em adaptações literárias para as telas. A obra da vez é “Anna Karenina”, de Leon Tolstói. Mas em vez de um filme de época, detalhista e realista, Wright optou bravamente por liberar a imaginação e criar uma cenografia inusitada. O filme é quase todo feito num Teatro e usa palco, platéia, balcões, cochia, bastidores, entradas, escadarias, halls e tudo mais do edifício. Cortinas, paredes, portas, tudo surge puxado por cordas, numa loucura visual que encanta quem gosta de ideias mais diferentes. Há muita coisa boa ali. Muita solução visual, de passagem de cena, de miss-en-scène, de cenário, de corte, de narrativa. Uma pena que o grande público não tenha repertório, paciência, saco e vontade de apreciar tudo isso. Algumas pessoas deixaram a sala do tradicional e conservador Kinoplex Itaim, enquanto a moça ao meu lado, já na 2a metade do filme, ainda não tinha entendido a ideia de colocar toda a aristocracia russa sobre um palco: “uma corrida de cavalos dentro de um teatro? O que é isso? Onde já se viu? Que loucura”. A mesma moça que antes do filme começar comentou com a amiga: “Não sei por que quero ir pra Capadócia. Encasquetei com isso”, sem se lembrar da novela “Salve Jorge”, atualmente no ar. De volta ao filme, uma pena que Wright quis simbolizar demais a obra e não levou a ideia do teatro até o fim. Ele resolveu colocar apenas as cenas da aristocracia dentro do Teatro. Já as cenas dos camponeses e da lavoura, são todas feitas em locação, em campos reais. Isso tira em grande parte o impacto criativo do filme, tornando-o uma simples adaptação literária. O roteiro também se perde na 2a metade do filme, muito em razão de atores perdidos diante de tanta criatividade cenográfica e pouco coração. Keira Knightely se esforça, mas não consegue entregar uma Anna profunda. Ela nos apresenta uma personagem chata, burra e irritante. Jude Law, envelhecido, se esforça como o corno passivo, sem muito sucesso. Mas apesar de imperfeito, o filme merece aplausos. Pela inovação e pelo esforço de ser diferente. De trilhar um caminho desconhecido e mostrar que nem tudo precisa ser como estamos acostumados. Palmas para Joe Wright.