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Ontem o paulistano ganhou as ruas. Eu destaco o paulistano, porque este talvez seja o brasileiro mais apegado ao carro. Que vive na cidade mais dependente do automóvel. Pois ontem ele foi para as ruas ao lado de todo o Brasil e andou. Andou muito. Eu, por exemplo, caminhei das 17h às 21h30. Do Largo da Batata até o shopping Morumbi. E, depois, até o Real Parque, do outro lado do rio.

Mas muito antes de chegar por lá, quando o sol ainda brilhava e muita gente ainda trabalhava e nem imaginava o que viria pela frente, eu estava a caminho da manifestação quando, ao cruzar a Marginal Pinheiros, encontrei a ponte Bernardo Goldfarb fechada pela polícia e já completamente tomada pelo povo. Bandeiras, faixas, gritos, cantos. A cena me impressionou. “Tira foto, Cris, tira foto”, eu insistia. Era a massa a caminho do Largo da Batata. Nos quarteirões seguintes, pessoas com cartazes, flores e sorrisos iluminavam as ruas de São Paulo. Já na região do Metrô Faria Lima, nossos gritos e nossos cantos rascunhavam o momento histórico que seria criado nas horas seguintes.

Antes de sair do trabalho, meu dupla não acreditava que eu ia realmente na manifestação. “Não, sério, vocês vão mesmo? Mas por quê?”. “Porque eu quero um novo Brasil”, eu respondia sob o olhar cético dele.

Por volta das 17h30, partimos para a caminhada. No trajeto de horas até a Ponte Estaiada, vi a senhora de 82 anos que todos os sites publicaram fotos. Vi muitos jovens de 15 e 16 anos. Vi pais e filhos. Vi muitas bandeiras do Brasil e algumas de Cuba. Vi faixas de partidos políticos e pedidos para que estas sumissem. Vi manifestantes gritarem “Sem partido!” e um senhor falar calmo, quase sussurando: “isso quem pedia era a ditadura”. Vi uma equipe de filmagens soltar um “disco voador” pelos céus. Vi uma linda chuva de papel picado na Faria Lima. Vi um ônibus articulado cuja luz interna piscava em apoio ao movimento. Vi silhuetas de engravatados embasbacados nas janelas de vidro da Faria Lima. Vi motoristas horrorizados e temendo a horda que cercava seus carros na Funchal. Vi funcionários de lojas e lanchonetes dançarem e cumprimentarem os manifestantes. Vi engravatados protegidos por uma porta de ferro no lado de dentro do Shopping Iguatemi. Vi o reflexo da multidão nos vitrais da Faria Lima e as pessoas aplaudindo impressionadas ao se verem naquele telão improvisado. E vi um prédio residencial com várias famílias sacudindo lençóis brancos, sob aplausos intensos e calorosos da massa caminhante. Ali, eu chorei pela primeira vez no dia. Porque demorei quase 33 anos para ver as pessoas nas ruas. Gritando e se manifestando pelo que elas pensam e querem. Tinha cartazes de “O PT não me representa” e “PSDB nunca mais”. Havia pedidos de renúncia do Alckmin e ironias contra o Haddad. Pediram a saída do Renan Calheiros e até a troca do Hulk pelo Lucas. Teve Fora Sarney, teve Fora Collor! Mas, o mais importante, pra mim, é que, apesar de cada um estar lutando por alguma coisa diferente, estávamos todos em paz e unidos.

Já no fim da noite, quando chegamos à Ponte Estaiada, tomada em cima, embaixo, em todos os cantos, eu chorei pela segunda vez. Manifestantes que já estavam em cima da ponte puxavam e ajudavam os que ainda estavam embaixo. Lembrei na hora da cena dos alemães ocidentais puxando os orientais por cima do muro de Berlim – cenas que revi recentemente no maravilhoso Newseum, em Washington DC.

Segui o atalho e comecei a subir a ponte, ouvindo e cantando o hino nacional, enquanto o grupo 2 de manifestantes vinha pela ponte ao lado no sentido contrário. Aquela cena, com manifestantes pipocando por todos os lados, a ponte iluminada ao fundo e o hino nacional em coro, me fez chorar pela terceira vez.

Em casa, ouvi relatos no rádio, li matérias na internet e vi reportagens na TV. Mas não encontrei nada do que eu vivi nas ruas. As cenas gravadas e as descrições dos repórteres não foram capazes de traduzir o que sentimos na manifestação. Não foram capazes de expressar tudo que vivemos. A mídia está perdida, como sempre esteve, mas desta vez não detém a verdade nem o discurso único criado em salas escuras e gabinetes. Agora a voz é nossa.

Antes de dormir, lembrei de um certo momento da caminhada, quando em meio aos contos e gritos, aos sorrisos e lágrimas, meu amigo Cris comentou feliz ao ler no celular: “Eles também tomaram a Paulista, mano!”. Eu apenas respondi: “Eles não, Cris. Nós”. Bom dia, Brasil.

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