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Hoje o texto vem com trilha sonora. Para você dar play e ler o que vem abaixo.

Ontem eu voltei para as ruas. Da Prefeitura de São Paulo, no Anhangabau, percorri o Centro Novo e subi a Augusta até Paulista. Acompanhei uma multidão pipocar por todos os cantos e tomar a avenida mais famosa de São Paulo. Mas o que eu vi ali não foi o que você viu na TV. Não foi o que você leu no Facebook.

Ao chegar em casa, depois da manifestação, descobri que bandidos se infiltraram entre manifestantes e aproveitaram para fazer vandalismos e saques. Descobri que existe um movimento para federalizar uma insatisfação que na real é com o poder, as autoridades e a política nacional de forma geral, e não focada no Planalto. Descobri que uma parte pequena de manifestantes começa a perder o foco. E alguns aproveitadores que conhecemos bem começam a colocar suas manguinhas de fora.

Na passeata, vi um jovem pichar uma faixa de pedestres e um casal pichar uma caixa de energia na calçada: foram cercados na hora por manifestantes que gritavam pacificamente “Sem vandalismo!”. Foram as duas únicas cenas de crime ou vandalismo que acompanhei nas ruas. Na TV, vi ladrões saqueando e depredando lojas do Centro.

Na passeata, vi novas chuvas de papel picado das janelas, mais lençóis brancos sacudidos e, a novidade, bandeiras do Brasil flamulando nas janelas da Paulista, sob as luzes de lasers verdes e holofotes vindos da multidão. Na TV, vi alguns vândalos destruírem a porta da Prefeitura.

Na passeata, ouvi músicas novas, li cartazes mais criativos e participei de diversas olas na Paulista, onde todos nós manifestantes nos abaixávamos para depois nos levantarmos num movimento orquestrado por uma harmonia intuitiva. Na TV, vi um idiota queimando uma bandeira.

Na passeata, vi tranquilidade, alegria, música, cor, criatividade, sorrisos, segurança, felicidade, orgulho e ativismo. Na TV, vi vandalismo, crime, idiotice e burrice.

Claro que nem tudo são flores. Na passeata, ouvi de amigos que algumas pessoas iriam ontem de novo porque tinham “pego três minas na segunda, como se fosse micareta”. Vi muita gente com latinha de cerveja e deixando a manifestação para se sentar nos bares da Augusta. Vi alguns cartazes com piada, mas sem conteúdo. E quando cheguei na casa da minha amiga para pegar meu carro, ouvi dela um pedido para o taxista colocar um valor maior na nota para que ela cobrasse da empresa em que trabalha (falei que ia trazer isso pro blog!).

O Brasil acordou, quer mudar e está clamando nas ruas por isso. Algumas pessoas ainda não entenderam, ainda não se informaram, ainda não refletiram e ainda se deixam levar por discursos vazios e mentiras. Ainda não percebemos que somos nós mesmos que precisamos mudar para que os políticos e o país mudem.

Em casa, antes de dormir, dei uma passada de olho no Facebook e li coisas que não fazem muito sentido. Que não representam de verdade a insatisfação popular, mas sim o ódio de uma elite incomodada com as mudanças que já vêm acontecendo nos últimos 10 anos.

Eu não vou deixar que uma minoria desmoralize um movimento tão bonito. Não vou deixar que criminosos sujem a imagem de manifestantes. Não vou deixar que idiotas provoquem a volta da violência. Não vou generalizar e apagar uma história que só cresce. Não vou e nem você vai. Já se fala em gente infiltrada e mal intencionada (mas muito bem paga) nas manifestações para destruir a imagem bonita e pacífica que elas vem tendo. Para manipular a opinião pública e desqualificar este momento único do país.

Eu não quero golpe, não quero ditadura, não quero desmoralização pública de pessoas bem intencionadas, nem discursos vazios, sabotagens e aproveitadores de plantão. Não quero retrocesso. Não quero governos de direita que privilegiem poucos. Não quero bilhões investidos em novas faixas para carros e apenas 1km de Metrô por ano. Não quero uma corrupção acobertada pela imprensa e pela polícia federal. Não quero todos esses problemas que estão aí, nem aqueles outros que existiam no passado.

Eu quero ônibus, escola, hospitais e demais serviços públicos no padrão Fifa. Eu quero um país mais decente e cidadão. Cidades que respeitem as pessoas e as priorizem em relação aos carros. Com malha vasta de transporte de massa e qualidade de primeiro mundo. Não quero mais ônibus feitos em chassis de caminhões, que além de altos sacodem como pau-de-arara. Quero ônibus de verdade e por preço justo. Quero qualidade de vida e um futuro melhor para os novos brasileiros que por aí vêm. Quero uma democracia com partidos políticos, que me dê opções claras de ideologias e projetos de país, e não que funcionem como empresas para alguns fazerem carreira e viverem disso, pensando mais no sucesso pessoal do que no que querem para o povo brasileiro. Quero um país sem corrupção, mas não só lá em Brasília ou nos palácios e assembléias, quero também nas casas, empresas, ruas, restaurantes, bares, taxis e parques do Brasil inteiro. Quero uma imprensa livre, mas também plural e democrática.

É por tudo isso que estou nas ruas. E não acompanhando pela TV ou pelo Facebook. É por isso que a cada dia que passa o som da minha voz desaparece um pouco mais. Mas só para quem não é atento. Por mais rouco e afônico que eu pareça, saiba que estou gritando cada vez mais alto e falando com cada vez mais gente. Se você ouve cada vez menos a minha voz é porque não está querendo me escutar.

Por isso, não fique em casa vendo a história acontecer nas ruas e ser mal contada nas TVs e no Facebook. Vem ver de perto, vem viver esse momento, vem sonhar com a gente, vem construir um país que realmente dê orgulho a você. Vem sorrir, gritar, cantar, abraçar, pular e fazer acontecer. Vem, vem pra rua contra o aumento! Vem!

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2 pensamentos em “O que eu vi nas ruas você não viu na TV (nem no Facebook)

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