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A platéia se levantou em êxtase, aplaudindo a trupe que, ainda maquiada, agradecia no palco do Adelphi Theatre, de Londres. Os gatos e gatas se curvavam de satisfação, em agradecimento ao carinho da platéia de turistas, encantada com a música e a magia do musical Cats.

Eu estava surpreso por ter amado um espetáculo de história simples e infantil, calcado na simpatia dos personagens e na música de Andrew Lloyd Webber. Mas eu não tinha muito tempo para refletir sobre isso. Deixaria para pensar no trem, a caminho de Brighton, onde eu morava, no sul da Inglaterra.

Eu me levantei rápido, peguei minha sacola de compras da Harrods e procurei a saída mais próxima. Eu tinha pouco tempo para chegar à estação Balham. Lá, pegaria o trem que eu já tinha pago direto para casa.

Quando comprei o ingresso de Cats, no início daquela noite, vi que a saída seria apertada. Eu teria cerca de 30 minutos para deixar o teatro de metrô e chegar até a estação onde pegaria o último trem da noite.

Corri para a saída e abusei da memória para lembrar onde ficava a estação de metrô mais próxima. Claro que errei e só percebi quando já estava a alguns quarteirões dali. Parei um londrino e perguntei pelo Tube. Como sempre, simpaticamente me exmplicaram o caminho e corri.

Fazia frio, era fevereiro, os dias ainda eram curtos e meu sobretudo era daqueles longos que a gente nunca usa no Brasil. Correr no frio é estranho. O rosto dói com o vento, mas por dentro da roupa quente você cria um forno insuportável. Metade do seu corpo sofre com as baixas temperaturas, metade sua de calor.

Cheguei na estação e corri para o vagão. Perfeito. Eu chegaria em 15, 20 minutos em Balham, a tempo de pegar meu trem e ir descansando em quase 1 hora de trajeto para a praia.

Mind the gap. Mind the doors. As portas se fecharam. Mas o vagão não saiu do lugar. Ficamos parados. Os minutos iam passando e meu suor aumentava, mais pelo desespero do que pela corrida.

Os próprios londrinos começaram a ficar incomodados com aquilo. Mas o problema de horário deles era infinitamente menor que o meu. Era tarde da noite de um dia qualquer da semana. Eles se atrasariam para chegar em casa e dormiriam menos antes do trabalho no dia seguinte.

Eu perderia meu trem para casa. As últimas libras que eu tinha na carteira eu havia gasto no ingresso do Cats. Eu carregava um cartão de crédito de emergência de meu pai, mas claro que não lembrava a senha. Eu dependia totalmente da passagem de ida e volta que eu havia comprado na hora do almoço quando deixei Brighton naquele dia. Eu não podia perder aquele trem.

Logo o autofalante foi acionado e o funcionário, muito educado, avisou que estavámos atrasados por um problema na linha. “Só espero que não seja alguém que se jogou no trilho, senão a gente não sai daqui hoje”, disse um londrino.

Meu raciocínio acelerou e pensei em hipóteses. Eu não conseguia sair daquele vagão, cujas portas estavam fechadas. O tempo estava curto para chegar a Balham. Eu ia perder meu trem. Minha outra opção era tentar chegar à Victoria Station a tempo de pegar o trem de uma outra companhia, que por sinal era mais rápido e caro que o meu. Mas como eu pagaria? Com o cartão do meu pai? E se pedissem senha? Na Europa alguns lugares pediam, outros exigiam apenas a assinatura.

Era um risco, mas era minha única opção. Calculei no mapa as baldeações que eu precisava fazer até Victoria e, assim que meu vagão começou a andar, me preparei para uma nova correria.

Feitas as baldeações, entrei na Victoria Station direto para a Bilheteria. Na fila, olhava o placar eletrônico com os horários dos trens. O último para Brighton saía dali a 10 minutos. A fila andaria a tempo? Eu compraria o bilhete a tempo? Correria até a plataforma a tempo? O cartão passaria?

Pedi a passagem e entreguei meu cartão. Suor pelo rosto. Suor pelas costas. Suor pela perna. Garganta seca. Mãos tremendo. Mas a sorte estava voltando para o meu lado e bastava apenas a assinatura. Paguei caro pela salvação da minha noite e corri para a plataforma. “Você vai precisar ser rápido ou vai perder este trem”, me avisou a vendedora.

Quando você está desesperado e correndo pelos lugares, acontece uma evolução genética instantânea e você ganha olhos de lince. Naquela multidão e excesso de placas e números e palavras e sinais e tudo quanto é coisa que surge quando você menos precisa delas, consegui enxergar o caminho até minha plataforma e corri.

Vi um trem parado, um funcionário apitando e portas se fechando. Me joguei como Jason Bourne. E caí dentro do vagão. Vazio.

O trem começou a andar e eu olhei pela janela para tentar confirmar se estava no correto. Tentava ver o número da placa para saber se tinha visto a plataforma certa. Não consegui.

Sentei. Enxuguei a testa. Engoli seco. E comecei a pensar nas possibilidades de como confirmar se eu estava certo. Esperei um tempo. Procurei por cartazes ou placas sobre a linha. Nada. Até que, pouco mais de 15 minutos depois, o trem parou numa estação. Enquanto um homem entrava no meu vagão, o autofalante anunciava que aquele trem iria se dividir na próxima encruzilhada. Metade iria para o norte, metade para o sul, com destino a Brighton. “Make sure you’re on the right car”.

Claro que fui perguntar para o inglês que havia entrado, mas ele prontamente me avisou que desceria na próxima estação, exatamente antes da encruzilhada e que, por isso, não sabia o destino final daquele vagão.

Quando o trem parou e o homem desceu, desci junto, procurando por um funcionário. Mas passava de meia-noite naquele inverno britânico e a plataforma estava vazia. Não havia ninguém para eu perguntar. Não havia placa alguma. Voltei para meu vagão segundos antes das portas se fecharem. E torci. Rezei. Me vizualizei perdido no norte do Inglaterra, passando a noite no vagão, chegando em casa ao meio-dia, encontrando a família com quem eu morava desesperada e cercada de policiais. Lembre-se que em 2000 brasileiro com celular no exterior não era uma realidade.

Só me restava esperar. Olhar pela janela para tentar identificar o caminho. Reconhecer alguma paisagem. Alguma estação. Alguma placa.

Até que confirmei que estava certo. No mesmo instante, derreti no banco. Todos os meus músculos afrouxaram e minha estrutura óssea se desfez naquele vagão. Virei uma geléia de pele, carne e osso que escorria pelo banco e se esparramava pelo chão. Só se viam dois olhos piscando perdidos naquele líquido viscoso. E no meio daquela pasta cor de pele, que se misturava à negritude do sobretudo, surgiu uma imagem branca que foi crescendo e tomando forma, pouco a pouco, até ser claramente identificada como um belo sorriso de alegria e satisfação.

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