Home

Sou aficionado por ficção científica, em especial as espaciais. Sou dos poucos trekkers também fãs de Star Wars. Mas garanto que nada disso influenciou meu êxtase e encantamento com “Gravidade”, novo filme do mexicano Alfonso Cuarón e, provavelmente, a grande produção do ano.

Tecnicamente impecável e dramaticamente coeso, a experiência que tive vendo o filme se compara a poucas de minha vida. Sim, porque não é comum eu entrar tanto na história a ponto de agarrar o braço da cadeira, me movimentar desviando de destroços, suar bastante nas mãos e ficar um bom tempo embasbacado com as imagens apresentadas. Sem falar da vontade de levantar da cadeira e gritar algumas palavras no meio da sala de cinema.

Cuarón é um exímio artista, apesar de irregular. Se lançou ao mundo com o belíssimo e tocante “A Princesinha”, escorregou em sua desequilibrada adaptação de “Grandes Esperanças”, com Ethan Hawke, Gwyneth Paltrow e De Niro, brilhou na quase obra-prima “E Sua Mãe Também”, fez o melhor filme da série Harry Potter, “O Prisioneiro de Azkaban”, e uma das grandes ficções da década passada, “Filhos da Esperança”, com Clive Owen e Julianne Moore, que apesar disso pouca gente viu. Em “Gravidade” ele atinge o auge de sua carreira.

O filme, apesar de blockbuster, é um ensaio filosófico sobre a fraqueza e a pequenez humanas. Em meio a tantos aparatos tecnológicos que fazem a humanidade urrar de prazer e poder na conquista espacial, vemos personagens puramente humanos que trazem muito de todos nós. Tanto a frágil, insegura e emocionalmente abalada personagem de Sandra Bullock, ferida pelos percalços da vida, quanto o carismático, engraçado e amoroso personagem de George Clooney são retratos de nós. E vêem todo esse poderio tecnológico que conquistou o espaço se esvair em poucos segundos. Vêem a segurança e suas certezas se dissiparem num estalo.

A obra é daquelas que já nascem com cenas que vão entrar para a história do cinema. O plano sequência da primeira chuva de entulho espacial destruindo a Explorer enquanto os personagens se vêem perdidos e confusos é primorosa. Dá vontade de levantar na sala e aplaudir de pé. A cena em que Sandra Bullock tira a roupa de astronauta – sua casca protetora – e assume uma posição fetal – num claro renascimento – é uma obra de arte plástica. As lágrimas em gravidade zero, amplificadas pela fragilidade e sensibilidade de Bullock, são emocionantes. Os pedaços da estação chinesa entrando na atmosfera são lindíssimos. E a contre-ploungê de Sandra levantando, já na Terra, e caminhando como os primeiros homens fizeram é arrepiante.

O filme não é perfeito. A certa altura ele exagera nos obstáculos que surgem no caminho de Sandra Bullock, a ponto de eu ter tido vontade de gritar “mata ela logo!” enquanto várias pessoas até caíam na gargalhada. Ao contrário do que ouvi por aí, acho que a produção exagera no uso da trilha sonora, apesar de ela entrar em alguns poucos momentos. Eles optaram em vários aspectos pelo “mais é mais”, quando sabemos que obras impecáveis vão pelo caminho oposto do “menos é mais”.

Com este diamante lindamente lapidado, Cuarón surge como um dos favoritos ao Oscar de diretor, assim como toda a equipe técnica nas categorias “menores”. Bullock também tem grandíssimas chances de receber sua segunda estatueta, já que é ela que traz humanidade, emoção e carisma em meia à negritude do espaço e à frieza dos equipamentos tecnológicos.

Arrisco-me a dizer, como já disse um dia sobre “Titanic”, que estamos diante de uma obra-prima técnica. Roteiro trabalhado e inovações dramáticas não são vistos por aqui, mas os efeitos são de tirar o fôlego. Visualmente perfeito e quase todo feito em computação gráfica. Sugiro que você veja como eu vi: em 3D e no IMAX. Não assista numa sala normal e, meu amigo, de jeito algum baixe em casa. Não estrague esta experiência única. De se aplaudir de pé.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s