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Paul Greengrass, responsável pelos dois melhores filmes da série Bourne (com Matt Damon) e, até agora, pelo melhor filme sobre September 11th (Vôo 93) – que lhe valeu uma inesperada indicação ao Oscar de Melhor Diretor – chega mais uma vez em plena forma e mostrando que é, atualmente, o mestre da tensão.

Usando uma história real de pirataria e sequestro em alto mar, Greengrass consegue entregar uma obra de entretenimento profunda, que em meio a uma montanha russa de emoções nos faz refletir sobre as absurdas desigualdades do mundo e o total abandono do continente africano.

O tempo todo, Greengrass nos esfrega, mesmo de forma sutil, as diferenças colossais entre o país mais rico e poderoso do mundo e uma das terras mais pobres e esquecidas do planeta.

A mansão do Capitão Phillips em Vermont se contrapõe à favela semidestruída dos sequestradores na Somália. Seu stationwagon que desliza suavemente pela highway de várias pistas bem asfaltadas se contrapõe à embarcação mambembe que mal consegue vencer o mar agitado. O porto de onde ele parte para o trabalho, impressionantemente grandioso (até pra mim, que nasci ao lado do maior porto da América Latina, Santos) e moderno, com seus guindastes, contêineres e navios colossais, se contrapõe à praia semiselvagem da Somália. Seu quarto e escritório no navio comercial, quase um hotel de luxo, se contrapõe à embarcação pesqueira caótica, com problemas mecânicos e brigas internas entre os sequestradores. O porta-aviões e demais navios de guerra da marinha americana se contrapõe à baleeira laranja e fofinha onde os sequestradores ficam confinados na parte final do filme. Os músculos dos soldados americanos SEALS se contrapõe à magreza e desnutrição dos somalis. E assim por diante.

É tudo tão desigual e desproporcional que chega a ser cômico. A marinha mobiliza uma força pesadíssima e muito dinheiro para salvar um único americano. Enquanto os somalis são abandonados por seus comparsas e vivem de uma ilusão desesperadora.

O filme é, como vem acontecendo nos últimos anos, um sinal dos tempos. Aqui, não existem os vilões clássicos do cinema americano, nem os mocinhos. Vemos personagens profundos e realistas, que tem suas motivações para justificar suas atitudes. O protagonista é capaz de tudo para tentar fugir: mentir, enganar, agredir, gritar. Assim como os sequestradores têm seus lados selvagens e humanos.

Greengrass também foi capaz de trazer Tom Hanks de volta ao Olimpo dos grandes atores do cinema americano. Ator acostumado a se descaracterizar fisicamente – como em Filadélfia e O Náufrago – e carregar seus personagens de emoção, Hanks brilha de forma impressionante na tela, partindo de um ponto contido, ordenado, racional, profissional e centrado até culminar no completo descontrole, desespero e caos. A cena final do personagem de Hanks é daqueles momentos históricos do cinema, em que dá vontade de levantar da poltrona para aplaudir a atuação. Se o ator já não tivesse dois Oscars na estante, eu diria que ele seria o favorito neste ano. Mesmo assim, de tão forte que é sua atuação, principalmente na parte final do filme, ele mantém chances fortes na disputa.

Tenso, profundo e emocionante, “Capitão Phillips” é uma obra perfeito do cinema de entretenimento americano. Imperdível nos cinemas.

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