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Não escondo meu encantamento pelos irmãos Coen. Roteiristas geniais e criativos, cada vez mais se tornam também diretores da mais alta realeza – como vimos nos toques de mestre em “Onde Os Fracos Não Têm Vez”. No recente “Inside Llewyn Davis” – perdido em cartaz entre os indicados ao Oscar – vemos o quanto eles são capazes de extrair de uma quase não-história. Sim, porque o que temos ali é um fiapo de narrativa. Nós acompanhamos alguns dias da fracassada vida de Llewyn Davis, músico miserável que vaga pelas cidades sem dinheiro, sem casaco, sem talento e sem destino. Um verdadeiro looser em busca de um sonho. Mas somente depois de sair da sala de cinema conseguimos entender melhor o personagem principal. E passamos a enxergar toda a arrogância, falta de sensibilidade e autodesprezo que ele sente. Porque enquanto estamos vendo a série de fracassos, erros e problemas que ele enfrenta, tudo parece normal e natural. Apenas quando refletimos melhor entendemos a fundo o lado negro do personagem. Em seu caminho, surgem personagens típicos dos irmãos Coen: figuras inusitadas que nunca existiriam na vida real mas que são capazes de fazer o contraponto de Llewyn Davis – fica difícil entender como não houve espaço para Johnn Goodman entre os indicados a ator coadjuvante. Sua participação é memorável. É no embate com estes personagens que Llewyn Davis revela todos os seus demônios interiores: ao se preocupar mais com a perda do gato do que com a gravidez da mulher do amigo (Carey Mulligan), ao menosprezar o jovem militar caipira (Stark Sands), ao desqualificar a música pop de seu amigo Jim (Justin Timberlake), ao surtar com o casal que oferece abrigo sempre que necessário (Ethan Philips e Robin Bartlett), ao desviar do caminho que levaria para a cidade onde está seu filho, ao abandonar um viciado (John Goodman) em plena autoestrada, ao destratar uma cantora que faz uma apresentação no palco etc. Temos também em cada um deles tudo que Llewin Davis jamais será: rico como os Gorfein (sempre recebendo amigos cultos para jantar pratos inusitados), talentoso como o militar caipira (capaz de ter o reconhecimento de todos), de sucesso como Jim (capaz de gravar músicas pop em grandes gravadoras), obsessivo como Jean (capaz de fazer sexo em troca de favores), normal como sua irmã (que mora numa pequena casa no subúrbio e tem família), famoso como o pai (lembrado por muitos, mesmo velho e incapaz) etc. A fotografia de cores frias e embaçada, as vozes mansas e suaves, os silêncios nos diálogos e a música melancólica (que teve participação do líder do Mumford and Sons) ajudam a criar um clima calmo e normal que contrasta com a história de fracasso contada na tela. Em Inside Llewyn Davis, vemos como o fracasso é comum e pode fazer parte da vida – de forma muitas vezes engraçada. A maioria das pessoas sempre encontra algum sucesso em suas vidas. Seja no trabalho, no amor, no jogo, no dinheiro. Mas são poucas aquelas que, ou encontram sucesso em tudo, ou vivem um fracasso total.

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