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Os cães de cativeiro raramente são silenciosos, porque latem lá de dentro dia e noite. Em vão. Sabem que as correntes não deixarão as grades nem na hora daquele pote de comida – que às vezes nem vem. Recebem um afago de vez em quando e abanam o rabo felizes com aquela alegria frugal e instantânea. Deitam, dão a patinha e se fingem de mortos. E brilham os olhos com um simples biscoitinho. Vêem um mundo lá fora que não é o deles. Ouvem passarinhos que cantam voando, escutam ratos que correm pelos canos e se irritam com gatos esbeltos que espreitam de lá pra cá. Ah, esses felinos malditos, que fazem o que querem, quando querem. Que retornam ao lar quando dá na telha, indo de telha em telha, de casa em casa. Um mundo inteiro para explorar. Aquela ensurdecedora sinfonia do cio pelas madrugadas, aquele corpo que se contorce e passa por onde for, aqueles pulos de canto em canto e aquelas garras que fincam e soltam à vontade. Se um cão adestrado pega um gato desses… Mostra os dentes, rosna, avança… Mas não ataca. A mordida morre na vontade, enquanto a baba branca escorre pelos pêlos. A vida adestrada dos cães de cativeiro não é pra todo mundo. Mas é sim para a maioria. Mesmo quando saem os cadeados e se movimentam as porteiras, preferem ficar deitados, dormindo, como fazem mesmo quando estão acordados. Bebem água, comem carne, tiram uma soneca e observam. Observam a vida de verdade que acontece só do lado de lá das barras de ferro. Onde apenas em sonhos eles estão. Onde apenas em sonhos eles podem ir. Até que um deles – um mesmo, nem de longe alguns ou a maioria – decide fugir. Aos que ficam, restam os sonhos e uma imaginação livre, que pinta e borda uma realidade que pode não ser verdadeira, mas que é gostosa de se fingir que é. Porque assim se imagina um campo, uma praia, uma floresta. Sem nenhuma grade. Que vai alimentar mais e mais sonhos, para tornar aquela vida adestrada um pouco menos sofrida. Um pouco menos real. E quando os pêlos já estão mais brancos, e quando os olhos já trazem manchas, e quando as patas já não aguentam o próprio peso, são sacrificados, diante de uma ou outra lágrima, para serem substituídos por novos cães de cativeiro, que irão seguir este ciclo triste e opressor. Mas necessário, porque o mundo não quer viver sem cães de cativeiro. Não, fiel amigo, não querem que isso mude. Torça para que seja você aquele cão serelepe que consegue passar pelo vão aberto entre a porta e o alambrado. Seja para viver a vida ociosa do cão de apartamento, seja para viver a triste vida do cão baldio. Ou para viver a livre vida do cão de chácara. Bom, mas a vida deste aí, meu bom amigo, é uma outra história.

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