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Tá, esqueça o título do texto. Foi mais para chamar a atenção. Mas eu não me surpreenderia se esse novo filme da Anna Muylaert voltasse com a estatueta. A primeira do Brasil. Seria bem legal e merecido. O filme é daqueles “pequenos” e simples, mas carregados se sensibilidade em cada cena.

Não quero falar muito sobre Regina Casé, já gastaram palavras demais sobre isso. Claro que ela está perfeita e é a alma viva do filme. Sem ela, talvez não estivesse aqui elogiando tanto a obra. Mas não quero que pareça que é um filme “da Regina Casé”.

Os méritos estão no roteiro. Que coisa linda e bem escrita. Na cena em que Bárbara pede que a filha de Val não fique perambulando pela casa, a dona-de-casa diz: “Val, que ela fique da cozinha PRA LÁ”. E Val responde: “Entendi, da cozinha PRA CÁ”. Bárbara: “Isso, da cozinha PRA LÁ”. A porta da cozinha como muro de Berlim, dividindo modos de vida completamente diferentes.

O filme é uma tese sobre luta de classes no Brasil – tremam, haters. Nos esfrega na cara coisas que aprendemos a aceitar como normais, por mais absurdas que sejam. A submissão, a aceitação, a ignorância, o ódio.

A cena do resultado do vestibular é antológica. Val confortando Fabinho enquanto Bárbara não sabe como agir. Mas quando a filha de Val passa e vai compartilhar a alegria, nem Fabinho nem Bárbara conseguem comemorar. Apenas sentem vergonha. Aquele peso de incompetência e humilhação.

O quarto de hóspedes é um símbolo dessa sociedade desigual e maluca que criamos e que aceitamos no automático. Enquanto Val dorme num cubículo quente e carregado de coisas, um quarto lindo e bem decorado permanece vazio todos os dias do ano. Porque é um quarto de hóspedes, não de empregados.

A piscina, símbolo máximo de status na maioria das cidades brasileiras – Santos era assim – surge imponente no filme em todas as cenas, desde a primeira, quando Fabinho ainda é pequeno, até a final, quando Val entra na piscina, mesmo sem saber muito como agir. Porque ela entrar na piscina é como um índio da Amazônia pilotar um Concorde.

A própria cena da demissão de Val é uma obra-prima. Mesmo depois de anos, mesmo depois de tanto tempo de submissão, Val não consegue abrir o coração e romper o muro que a separa dos mais ricos. Ela tem aquilo preso no peito e na alma, mas mesmo assim se mantém em seu lugar. Não quer destruir o muro porque na cabeça dela não pode. E só quando está em casa, na favela, com a filha, é que, sentada na mesa da cozinha, pede para que a filha passe um café. Pela primeira vez na vida.

O elenco está muito bem, de forma geral. Bárbara me incomodou um pouco no começo, mas depois engrena. E a simplicidade dos planos e dos cortes, já vistos em outros filme da diretora, funciona como nunca.

“Que Horas Ela Volta” é desses filmes que, mesmo com bom humor, nos mostram o lado mais feio da sociedade, com risadas e lágrimas e a certeza de se estar vendo uma grande obra.

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