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*** COM SPOILERS ***

 

James Bond não surgia tão envelhecido nas telas desde as rugas e o cabelo acaju de Roger Moore em “007 Na Mira dos Assassinos”. Este “007 Contra Spectre” se resume a um punhado de cenas de ação pouco inspiradas (perseguição de carros nas margens de um rio, quantas vezes já não vimos no cinema?), costuradas por uma história que busca empolgar os fãs (temos o renascimento da Spectre e o ressurgimento de Blofeld, o maior vilão da série) e se manter atual ao momento em que vivemos (privacidade e controle da informação), tudo temperado com referências ao passado da franquia (O vilão brutamontes de Dave Bautista remete ao Oddjob de “Goldfinger” e ao Dentes-de-Aço da Era Moore, por exemplo).

 

No geral, o filme parece um pouco preguiçoso. Falta criatividade em quase tudo. É verdade que Sam Mendes não queria dirigi-lo, mas deve ter sido convencido pela grana. O diretor deve ter queimado todas as boas ideias que tinha em “Skyfall” e levou “Spectre” no automático. Vamos lá:

 

– Sequência de abertura: temos um belo plano sequência (nunca imaginei falar isso sobre um filme de Bond) a la “Marca da Maldade”, num festejo espetacularizado do Dia dos Mortos mexicano. Direção de arte e cenários impecáveis. Temos uma boa cena do prédio desabando, Bond pulando no momento exato e depois escorregando para a fuga com bom humor. Ia bem até aí. Mas quando chegamos ao helicóptero (clara referência a “Somente Para Seus Olhos”), vemos belas piruetas mas pouca emoção. E é assim que o filme irá se desenrolar nas quase 2 horas e meia seguintes.

 

– Música-tema: eu particularmente nem sabia quem era Sam Smith e fiquei com uma péssima impressão sobre o cara.

 

– O Vilão: Blofeld é o maior vilão da franquia, um clássico da série que inspirou o Mr. Evil de Austin Powers. Foi ele quem matou a esposa de James Bond no excelente “A Serviço Secreto de Sua Majestade”. Mas, convenhamos, Christoph Waltz não rolou. Eu adoro ele, acho os dois Oscars que tem na estante merecidos, mas como Blofeld não deu. Compare com o Silva de Javier Bardem (“Skyfall”) ou mesmo com o Le Chiffre de Madds Mikkelsen (“Cassino Royale”). Não dá. Blofeld tem que ser o mais foda de todos. Nem os diálogos entre os dois personagens são bons. E ainda tem o vilão C, vivido por Andrew Scott (um Mark Ruffalo do Mundo Bizarro): fraquíssimo, de dar sono.

 

– Cenários: a série é conhecida pelas locações impactantes e inspiradas, lembre-se do hotel onde Bond se recupera em “Cassino Royale” ou do restaurante sobre as águas em Macau (“Skyfall”). Aqui em Spectre o momento em que chegamos mais perto disso é naquela clínica no topo das montanhas austríacas. E só. Compare a ilha abandonada de Javier Bardem em “Skyfall” com a base construída por Christoph Waltz dentro da cratera em “Spectre”. Incomparável, a primeira é muito mais impressionante.

 

– Fotografia: o mestre Roger Deakins não voltou ao cargo e foi substituído pelo ótimo Hoyte Van Hoytema. Mas o cara preferiu repetir os tons “barrocos” de “Skyfall”, com uma mão muito mais pesada, tornando o filme escuro e até pouco nítido. Parece mais uma propaganda de whisky do que um filme de 007.

 

Irrita também a tentativa de se amarrar “Spectre” com os outros três longas de Daniel Craig. Para quê? A série nunca foi uma sequência, nunca teve um cânone. Soa besta, assim como ver as fotos dos personagens/atores penduradas nas paredes de um prédio prestes a explodir – imagine Christoph Waltz grudando cada foto nas paredes, correndo, antes que Bond chegue.

 

Já as Bondgirls estão bem. Monica Belucci, mesmo que em aparição meteórica, marca como uma personagem mais velha. E Lea Seydoux talvez seja a Bondgirl mais bonita desde Eva Green.

 

O filme não é uma bomba como “Quantum of Solace”, longe disso, mas depois da expectativa criada por “Skyfall” e pelas notícias de que este seria o último longa de Daniel Craig, “007 Contra Spectre” é uma obra frustrante. Fraca e decepcionante.

 

A série vinha relativamente bem na Era Craig. Haviam feito o trabalho direitinho em “Cassino Royale”, um dos melhores filmes da franquia, mostrando um Bond jovem e em início de carreira, hesitante, que esfregava os dedos sujos para tentar tirar as manchas de sangue. Você lembra da cena dele no chuveiro com Eva Green.

 

Depois, veio o flop “Quantum of Solace”, muito em função da então greve dos roteiristas. Um filme para todos esquecermos, tamanha a falta de qualidade. Mas havia ali uma tentativa de atualização do personagem, transformado num Jason Bourne wannabe – o editor era o mesmo, inclusive.

 

E, há dois anos, surgia “Skyfall”, que elevou o nível técnico da série para outro patamar, muito graças à equipe montada pelo diretor Sam Mendes, aquele da obra-prima da cultura pop “Beleza Americana”, do estiloso mas mediano “Estrada Para a Perdição”, do interessante “Soldado Anônimo” e do excelente “Foi Apenas Um Sonho”.

 

A série vinha num movimento de reboot. A sequência do cano da arma, que sempre abriu todos os filmes da franquia, surgia no meio de uma cena ou no final dos longas. Um detalhe perto do que era feito com o personagem: inseguro, humano e imperfeito. “Skyfall” encerrou este ciclo, como eu disse no meu texto sobre aquele filme, trazendo de volta os principais alicerces da série e preparando terreno para um quarto filme que nos mostraria como a franquia se manteria viva com um pé no passado e outro no futuro.

 

Pois “007 Contra Spectre” botou os dois pés no passado, na expectativa de que a nostalgia e as homenagens pudessem segurar um roteiro pouco inspirado. O que vemos ali é uma série de referências a filmes anteriores, o que é bacana para nós que somos fãs, mas apenas quando isso se torna a cereja do bolo e não o bolo inteiro.

 

Fica a dúvida sobre o futuro da série. Caso repita ou supere o sucesso estrondoso de “Skyfall”, talvez até Craig retorne. Mas caso não chegue perto de ultrapassar o 1 bilhão de dólares, Bond, como “Spectre” nos mostra, pode mesmo ter decidido largar tudo e se aposentar? Claro que não, a série vem se sustentando nas telas mesmo com todas as mudanças culturais e também da indústria do cinema. A dúvida fica sobre qual Bond irá surgir nos próximos anos. Um Bond nostálgico, percebemos com este filme, não será bem vindo. A ver.

 

 

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