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Morar fora é bem legal, recomendo a todos. Acho que todo mundo deveria passar por esta experiência. Eu morei três vezes, em momentos diferentes da vida. Adolescente, na Colômbia, com a família, indo à escola e dando satisfação aos pais. Universitário, em casa de família, fazendo curso de inglês na Inglaterra. E trabalhando, dividindo apê com outras seis pessoas, em Chicago.

Tirei coisas incríveis de cada experiência. E frequentemente me perguntam por que não vou morar fora de novo. Posso até ir, ninguém sabe o dia de amanhã, mas eu gosto muito de morar no Brasil, amo São Paulo e sou apaixonado por me sentir em casa.
Lá fora você sempre será um estrangeiro, “o brasileiro”. Não importa quão fluente na língua você seja, será sempre um foreign. No supermercado, no médico, falando com o encanador. No começo você até se diverte dizendo “sim, sou do Brasil”, mas depois de dois anos enche o saco. Eu só quero que você ligue minha TV a Cabo, só isso.
Você sente falta dos seus lugares, dos seus amigos, da sua família. De poder voltar a um lugar que é a sua casa, onde você entende as piadas antigas ou as referências a um velho programa de TV ou a uma personalidade do passado.
Você vai fazer amigos, mas os circunstanciais. Estamos aqui, sozinhos, não conhecemos ninguém, bora ser amigos? Claro!
Você vai ver e viver coisas que queria compartilhar com seus amigos daqui, mas acredite, os vídeos e fotos por whatsapp nada vão significar pra quem não está lá com você. Faz falta não estar entre os seus. Muita falta. É tanta coisa legal que o amigo X iria amar e que a amiga Y iria pirar, mas você está lá, sem eles. A vida solitária machuca.
O que mais vejo em muitos amigos que moram ou moraram fora é que eles confundem a cidade em que estão com um novo modo de vida. Me explico. Muita gente não vive a vida. Trabalha e vai pra casa, onde vê séries, filmes e novelas. No fim de semana, ou está cansado e fica em casa, ou faz os programas que todo mundo faz.
Daí quando vai pra Londres ou Nova York, fala: “tô aqui, preciso aproveitar”. Então vai a shows, parques, eventos, museus etc. Sim, normalmente por lá a cidade é mais segura e civilizada, o que facilita. Mas só normalmente. Isso já acontece com quem só viaja, imagine com quem mora.
Amiga minha me disse: “o que eu gostava lá fora era poder ir a shows pequenos, de bandas boas”. Poxa, cansei de ir a shows no Beco, no antigo Studio SP, na Clash e até no Cine Jóia, lugares pequenos. “Lá fora eu ia pro parque”, e eu também vou. Já fiz picnic no Ibirapuera, no Água Branca e no Sesc Interlagos. Andei de bicicleta no Villa-Lobos e vi shows no Independência. “Tinha eventos na rua”. Você pode não gostar do Achiropita, da Virada ou do Brooklin Fest, mas São Paulo é repleta de eventos menores e tranquilos – SP Na Rua, Festa Junina da Vila Madalena, festas dos coletivos culturais. “Eu ia muito a museus por lá”, e por que não vai ao Masp, um dos melhores da América Latina, ou à Pinacoteca, ao MIS, ao MAC, ao Museu da Língua Portuguesa ou o Museu do Futebol? Tem sempre exposições incríveis no Tomie Ohtake e no CCBB.
Meus pais e até amigos só vão a shows e ao teatro fora do Brasil, sei lá por que. Quando poderiam ter essa vida aqui. 
Você vai se sentir só, deslocado, solitário, faz parte. Vai achar que seus amigos estão se distanciando – o que é fato mas também besteira, os amigos de verdade você não perde nunca. Vai achar que seus parentes estão envelhecendo e que, talvez, quando você volte, eles não estejam mais por aqui – o que é fato também, daí você tem que ver quais são suas prioridades.
Voltar depois de muito tempo fora é estranho. Eu por exemplo não vivi o fenômeno Mamonas Assassinas, eles surgiram e morreram enquanto eu estava fora. Quando aparece o assunto ou toca uma música eles não significam nada pra mim, porque foi algo que perdi. Mas muita coisa permanece como era quando você volta. “Vivi tudo aquilo por lá e eles continuam na mesma”. Sim, vem esse pensamento.
Você estranha os problemas daqui, se tornando o chato que faz comparações, mas também esconde os problemas de lá. Problema tem em todo lugar, eles só mudam de caixinha.
Mas é muito legal aprender uma nova cultura ou uma nova língua, é algo que você leva pra sempre com você. “Porque quando eu morava em…” se torna parte do seu vocabulário porque é parte da sua história.
Mas muita gente acaba vivendo só lá fora, por estar lá, por se sentir mais seguro, por achar a frequência mais bonita, não importa. Acho legal, porque assim ele aprende a viver. Mas saiba que dá pra viver por aqui também, com seus amigos, parentes e seu país. Sem sentir falta de casa.
A neve e o frio são bacanas no início, mas se tornam um saco no dia-a-dia. Você passa a rezar pelo verão, mesmo que de poucos meses, ao mesmo tempo em que vai reclamar do calor intenso. Vai sonhar com o inverno tranquilo brasileiro – e de dias nem tão curtos assim.
E, acredite, a solução para os seus problemas nunca é mudar de lugar. Os problemas vão com você, mesmo que em inglês ou alemão. Tudo se repete. Pode não parecer no começo, mas uma hora eles chegam. Assim como chega uma sensação de estar numa bolha, longe de todos que você ama, perdendo o que é de importante na vida deles e deixando de compartilhar o que é de importante na sua. Daí depende de como era sua vida por aqui e quantas relações importantes tinha. 
Acho que todo mundo deveria morar fora. É uma experiência incrível. Mas acho que todo mundo deveria aproveitar a vida e viver, não importa se seja lá ou aqui no Brasil. O importante é aproveitar e nunca deixar pra depois. E, mais do que isso, se sentir parte do lugar.

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