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Minha primeira impressão de David Bowie, quando tive contato pela TV ainda pequeno, foi de medo. Aquele ser era muito estranho. Lembro também o quanto ele me assustava no filme “Labirinto” – não só pelos cabelos, olhos e dentes, mas também pela música. Porque o estranhamento normalmente provoca isso em quem não está disposto a mudar: o medo. E a passagem de Bowie pelo pequeno planeta azul pode ser avaliada desta forma: ele veio mexer com a gente. E mexeu. Não só com nossas cabeças, mas também com nossos quadris.

E não é para isso que existe a arte, seja erudita ou pop? Mexer com a sociedade, com as ideias, com nós mesmos? Bowie, o renascentista contemporâneo, fez isso muito bem. Por isso a morte dele é tão comentada e sentida nesta segunda-feira cinzenta paulistana. Quem, hoje, irá ocupar o espaço que ele preencheu com tanto vigor nos anos 70 e 80? Sim, há um bom tempo ele não tinha o mesmo impacto de antes, a década de 90 foi bem mais fraca que as anteriores e o século XXI dele foi abalado pela saúde frágil. Mas escutando um The Next Day ou o recente Black Star vemos que o rapaz de olhos coloridos ainda tinha muito a nos fornecer.

Bowie fez parte de uma geração impecável, de McCartneys, Lennons, Jaggers, Gilmours, Waters, Townsheads, Claptons, Iggies. Quanta gente talentosa, ativa, desacomodada e realmente artística. E David simbolizava tudo isso, por sua capacidade única de se reinventar e de se cercar do que havia de melhor, fosse um figurinista, fosse um diretor de cena.

Taí uma boa lição que o mestre nos deixa. O movimento. A fuga do comodismo. Talvez por isso ele quisesse provocar tanto medo, para nos mostrar que este sentimento é vazio e sem sentido, que no fim das contas, quando você encara o que dá medo, encontra a poesia de uma “Space Oddity”, o swing de uma “Modern Love” ou a genialidade de uma “Ashes to Ashes”.

Num mundo canibal em que o dinheiro e a estabilidade são buscadas com faca nos dentes, vejo tanta gente se cercando de incompetentes e desprovidos de talento, porque estes não provocam medo, quando poderiam se cercar, como Bowie, do que há de melhor e, juntos, produzirem algo realmente de valor.

Hoje as estrelas da música – e em geral – são bem mais contidas, menos ousadas e muito acomodadas. Se preocupam mais com a carreira do que com o que produzem de verdade. Mais com as perspectivas de uma nova turnê do que com o legado que irão deixar. Porque neste mundo do politicamente correto, mas principalmente, neste mundo desigual e pobre, ninguém quer correr riscos, ninguém quer deixar o status que conquistou.

Por isso quase espumei quando Zeca Camargo, na Globo News, cogitou comparar Lady Gaga a David Bowie. Pelo amor de Deus, né? Acho que o apresentador estava abalado com a morte do mestre ou de ressaca pela baladinha de ontem. Não é possível.

Neste dia de luto a gente começa a mexer em nossas memórias, a cavucar momentos marcantes. Lembro do primeiro cover que vi de Bowie, no extinto Studio SP da rua Augusta. Keka dizia que eu cantava como se estivesse num show verdadeiro do mestre. Quem sabe eu estava mesmo. Em alguma outra dimensão.

Lembro também quando Bowie surgiu no filme “O Grande Truque”, do Nolan, saindo em meio à fumaça branca, encarnando outro ser criativo e desacomodado que viveu na Terra, Tesla. Que entrada triunfal! Bowie provocava essa empolgação, não importa o que fizesse.

E a exposição recente que todos vimos no MIS? Fui no último dia, no último momento, para fugir da fila. Jantei no CHEZ MIS e por volta de 0h30, entrei na exposição tranquilamente e lá fiquei até 3h30 da manhã, quando fechou para sempre.

Poucas mortes de famosos mexeram tanto comigo. Nem a de meu beatle favorito, George Harrison. Por que será? Foi triste ver a mensagem da Ana no Whats, entrar nos sites, ligar a TV e encarar esta verdade.

Eu poderia abraçar o pessimismo que vem com a minha idade já mais avançada e dizer que o futuro será negro sem Bowie. Mais coxinha, menos ousado, menos cool, menos sexy. Ou seja, chato pra caralho. Bem mais a cara desse movimento conservador e direitista que parece crescer no mundo todo. É como se tirar Bowie de cena fizesse parte disso. Espero que não. Mas como sou um otimista, não farei nada disso. Direi apenas que não vejo hoje na música, ou mesmo nas artes em geral, alguém tão camaleônico (para usar a expressão que sempre simbolizou Bowie) quanto o astro que nos deixou. Mas a beleza da vida é sermos sempre surpreendidos, não é mesmo? Acho que ainda poderemos ser. Se a vida é cíclica – como de fato é – estamos muito perto de vivermos uma explosão artística, com muita ousadia e criatividade. Amém.

Bom, você já ouviu bastante as músicas do mestre na sua vida e deve estar sendo encharcado por elas hoje na timeline. Então, deixo aqui algo diferente. Bowie cantando com o Arcade Fire, a melhor coisa do universo. Porque o mestre entendia de música e sabia que esses canadenses são bem acima da média.

Tanto que gravou o backing vocals no finzinho desta música:

E, pra finalizar, esta cena antológica do filme C.R.A.Z.Y.

Obrigado, Bowie. As estrelas parecem muito diferentes hoje. Ganharam uma nova companheira, de duas cores.

 

 

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