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Coldplay ***

Já gostei bastante de Coldplay, lá no começo dos anos 2000, com os álbuns Parachutes e A Rush of Blood To The Head. Vi um show espetacular da banda no Via Funchal, há muitos anos. Mas a partir do mediano X&Y, a banda tomou aquela mesma decisão de tantas outras como U2, Kings of Leon, Arctic Monkeys, The Killers e Pearl Jam, de se tornar maior e mais abrangente para não desaparecer. Aquele bom e velho, “do pop à explosão”.

E Coldplay explodiu. É hoje das maiores bandas pop do planeta. Mas a que preço? Não precisava implodir o que tinha de melhor.

Ontem, no Allianz Parque, era gritante a diferença entre uma Yellow, Clocks ou The Scientist e uma Paradise, Magic ou Hymn for the Weekend. Como são pobres e chatas as músicas pós-2005 da banda! Talvez por isso o show seja tão exageradamente sensorial, com incansáveis fogos de artifício no céu, umas cinco grandes explosões de papel picado ou pó colorido, fumaça inclusive nas partes mais distantes do palco, balões e bexigas coloridas, lasers que não fariam vergonha numa balada coxa e, claro, as já famosas pulserinhas brilhantes. Quase uma escola de samba em plena Marquês de Sapucaí, com alegorias e adereços nota 10. Se Magic ou Paradise tá te enchendo o saco lá no palco, você vira as costas pra banda e fica curtindo as luzinhas coloridas e piscantes no estádio lotado. Não é sempre que a gente tem uma imagem dessas na nossa frente.

Tudo isso faz do show do Coldplay um espetáculo visual bastante exagerado, como acontece nos shows de toda banda pop. Eles precisam distrair o público heterogêneo e tirar o foco da pobreza das músicas. Precisam de outros elementos além do som para distrair a platéia que quer fazer vídeos, fotos e dar seus gritinhos. Tudo isso transforma o espetáculo numa grande balada de massa, mais parecida com aqueles festivais de música eletrônica que traziam Calvin Harris e David Guetta do que com um baita show musical.

Pegue por exemplo as apresentações do Arcade Fire, extremamente pulsantes e vibrantes, mas baseadas na música. Os músicos da banda dão sangue no palco, pulam, suam, gritam, mas a música jamais deixa de ser a vitrine. Com bandas como o Coldplay, a música é apenas um acessório. Até porque, você já cansou de ouvi-las nas novelas da Globo ou nos corredores de um shopping – espero que não tenha ouvido nas baladas que frequenta.

Mas dá para se divertir bastante. É só não assistir ao show com preconceitos. Tem que entrar no clima, botar a pulseira e prender o botton no peito. Tem que levantar o bracinho quando a pulseira começar a piscar, gravar uns vídeos do mar de luzes, apontar os fogos de artifício no céu, sacudir o esqueleto nas batidas eletrônicas e acompanhar o coro de u-hus e ôôôs de músicas compostas para Estádios. Não é sempre que você tem a experiência de uma balada eletrônica em Ibiza, sem precisar sacrificar sua dignidade realmente indo a Ibiza. E como não dar risada daquelas interações que os músicos pop fazem com alguém da platéia? Ontem, Chris chamou dois coxas que, pasmem, pediram suas namoradas em casamento em pleno palco, na frente de 45 mil pessoas. “Romântico”, né?

Por tudo isso, é até interessante saber que a banda está prestes a desaparecer. Faria um bem à música. Chris Martin poderia começar uma carreira solo, menor e sem grandes pretensões espetaculosas, e lançar canções como as que fazia lá nos anos 2000. Poderia, mas duvido que o faça.

Apesar do que meu texto possa fazer parecer, é sim um bom espetáculo de Estádio. Vale a pena ir pelo menos uma vez. Seja para apreciar as poucas boas músicas que eles ainda tocam, seja para curtir a overdose de luzes e elementos visuais coloridos que tentam a todo instante tirar o foco da banda que está no palco para que você não deseje que outra esteja no lugar. Basta fechar os olhos e apertar o foda-se. “Se estou em Ibiza, que assim seja”. E quando você menos esperar, estará gritando seus u-hus e ôôôs, misturados com risadas envergonhadas mas com a certeza de que todo mundo, mesmo os mais céticos, precisam de vez em quando de uma válvula de escape bem superficial, bem Coldplay. Por que não? O maior risco que você corre é se pegar no dia seguinte cantando… call it magic… call it true…

ps 1: um conhecido meu, de bom gosto musical, ao ver pelo Facebook que eu estava no show do Coldplay, perguntou desesperado: “precisa de socorro? sai daí!”. Era o bom e velho Rafael Barreiros.

ps 2: sagaz, sabia que a banda faria parte do show em dois palcos alternativos no meio do público. me posicionei bem perto de um deles e tive um pocket show, sem luzes ou pirotecnias, das boas músicas Speed Of Sound e Trouble.

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