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O musical “Gabriela”, do venerado João Falcão, é um desses espetáculos que valem cada centavo. Não só por traduzir a essência do livro de Jorge Amado, com o drama social dos retirantes, mas principalmente por entregar uma belíssima experiência cenográfica. Vale citar desde já o bem sacado uso das esteiras por onde os atores andam e correm, numa dança visual que traz não só dinamismo, mas jovialidade e ritmo ao espetáculo.

O visual, à primeira vista, pode parecer o ponto forte de “Gabriela”. A direção de arte de Simone Mina aliada à luz de Cesar de Ramires criam toda a cenografia necessária para nos transportar à Bahia, de forma singela mas criativa. As escolhas da direção baseada na síntese de cada significado formam com coesão um show imaginativo e sensível. O melhor exemplo são as representações dos varais de roupas limpas e da janela de uma das personagens, que não vou dar mais detalhes para não estragar.

Sem grandes firulas, mas com muito talento, esta criativa cenografia é um prato cheio para a verdadeira força de “Gabriela”: o elenco. Os atores desfilam seus talentos vocais e de interpretação sem as duras amarrações que muitas vezes acompanham os grandes musicais. E a novata Daniela Blois, que vive Gabriela, não perde tempo. Dona de um timbre apaixonante, ela desfila a inocência e a sensibilidade que a protagonista exige, sem perder a sensualidade. O Nacib de Danilo Dal Farra cativa pela empatia e pela naturalidade, assim como o Tuísca de Eliane Carmo, o coração vivo da peça. Mas, quem brilha de verdade é o narrador vivido pelo mineiro Mauricio Tizumba. Com clara referência a um dos personagens de Rei Leão, ele flana pelo palco com desenvoltura, carregado de ironia e naturalidade, produzindo um personagem de forte apelo popular e paixão. É o guia que conduz o espectador o tempo todo.

A opção por usar músicas já conhecidas, a princípio, pode parecer errada. Afinal, em musicais as canções devem empurrar a ação para frente, ajudando a contar a história. Mas o uso de grandes hits de Caymmi, Chico, Tom, Caetano, Milton, Marisa Monte e até Skank se mostra bastante acertado ao longo do espetáculo. Funcionam como traduções perfeitas dos sentimentos e reflexões dos personagens, criando também uma conexão maior com o público brasileiro, estranhamente apaixonado por música mas avesso a musicais. Tudo com novos arranjos e execuções maduras. Truque que vimos muito bem aplicado no cinema no “Moulin Rouge” de Bazz Luhrman.

Senti falta de uma grande cena final para o casal, mas nada que atrapalhe de verdade. O número musical que encerra a apresentação é um belo desfecho político, em sintonia com a própria obra de Jorge Amado e claramente contemporâneo em dias de desigualdade e desequilíbrio econômico.

“Gabriela” consegue unir o novo e o velho, a tradição e o contemporâneo, arriscando-se com soluções simples e criativas e entregando aos atores e seus personagens o bastão condutor da história, sustentando-se nas letras dos maiores compositores brasileiros. É uma ode à brasilidade, à nossa essência enquanto nação, mas também às nossas desigualdades e mazelas, aos nossos talentos, à nossa poesia, à nossa sensualidade e à nossa alegria. Dá-lhe Bahia. “Gabriela” não pode ficar escondido do grande público. Merece – e muito – ser visto.

Quando: Quinta e sexta, 21h, sábado, 17h e 21h, domingo, 18h.
Onde: Instituto Tomie Othake, Teatro Cetip – Rua dos Coropés, 88, Pinheiros, São Paulo

 

 

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Um pensamento em ““Gabriela”: o que o Brasil tem de melhor

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