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Em tempos de crise no Cinema, em que Hollywood aposta em filmes recheados de efeitos especiais inverossímeis, super heróis idênticos e histórias ralas que se repetem, focando num público imaturo e disperso, o diretor mais poderoso do mainstream mundial nos apresenta seu primeiro filme de guerra e, como Spielberg fez nos anos 80, seu primeiro filme “sério”.

“Dunkirk” é a visão de Nolan para a guerra, como Kubrick mostrou a dele em “Dr. Fantástico” e Tarantino a dele em “Bastardos Inglórios”. Pois a do diretor inglês é seca, tensa e silenciosa: tudo que importa é sobreviver, como verbaliza um dos personagens, num dos poucos diálogos do filme.

As armas, aqui, pouco interessam, estão quase todas empilhadas na mureta do cais. No fim das contas, a sobrevivência do homem depende de seu corpo, da sorte e da ajuda de outros homens. Ele deve lutar mais contra a natureza, com suas marés, ondas, temperaturas, ventos, além da sede, da fome e da doença, do que contra o inimigo, que aqui mal dá as caras. O homem, não importa qual nível tecnológico alcance, ainda é um animal que precisa defecar, como mostra o filme logo no começo, e lutar para sobreviver. Nem as máquinas ou as armas serão capazes de conquistar por ele a fuga para a vida.

Em Dunkirk, não há sangue, não há tripas, não há membros soltos de seus corpos. Bem diferente do “Resgate do Soldado Ryan” de Spielberg ou de “Até o Último Homem” de Mel Gibson. Não há também a mão pesada melodramática de muitos filmes de guerra.

Nolan sabe que está fazendo Cinema, sabe que está fazendo Drama, e aposta todas as suas fichas nisso: conflitos fortes que se estendem, cenas grandiosas de impacto visual hipnotizante, efeitos sonoros carregados e uma trilha sonora tensa e crescente – em mais uma parceria com o gênio Hans Zimmer, que aqui substitui a “sirene” musical de Dark Knight pelo click musical de um relógio ou pelo som de queda de um avião para criar suspense.

Sim, numa época em que as séries e o VOD parecem tomar as rédeas da indústria do entretenimento, o diretor inglês nos mostra como o Cinema ainda é a vertente audiovisual mais operística, ambiciosa e estimulante da cultura ocidental. Impressionante.

Para conseguir essa catarse, acompanhamos três histórias com durações de tempo diferentes, mas que nos são apresentadas como se fossem paralelas: soldados tentando sair da praia de Dunkirk por uma semana, um barco civil de resgate por um dia e os caças ingleses que protegem a fuga dos britânicos por uma hora. Além de um elenco masculino estelar, com Mark Rylance, Tom Hardy, Cillian Murphy, Kenneth Branagh e James D’Arcy.

Depois de muitos anos e de uma série de filmes, me parece que Nolan está construindo uma filmografia parecida com a de Kubrick: de reinterpretação de gêneros. Assim como o americano, o diretor britânico pula de gênero em gênero, desvirtuando regras e reinventando estruturas. Não que tenha alcançado a mesma genialidade de Kubrick, longe disso, mas em tempos de crise do cinema é relevante ver como Nolan consegue tudo isso com blockbusters de extremo sucesso. Goste você ou não do estilo dele, é algo louvável.

Dunkirk é esse espetáculo cinematográfico, uma imersão tensa, visualmente hipnótica e à flor da pele, que nos mostra como o cinema ainda é o único capaz de obras tão imponentes e colossais como esta. Nenhuma batalha de Game of Thrones, com seus soldados dos sete reinos, seus três dragões, seus exércitos de imaculados e de dothraki, além dos mortos-vivos, é capaz de fazer frente a dois pequenos aviões da 2a Guerra lutando pela sobrevivência através das lentes de Christopher Nolan. Drama é isso, não precisa de truque. O cara entende do babado.

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