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Não se engane com a chuva ácida, com a falta de vegetação ou com a população moribunda que não tem dinheiro ou poder para sair da Terra. No futuro, haverá amor. Haverá paixão pela vida. Uma mensagem já trabalhada na obra-prima original de Ridley Scott está de volta com ainda mais força nas mãos do canadense – e um dos melhores diretores do mainstream da atualidade – Dennis Villeneuve, o mesmo dos ótimos A Chegada, Suspeitos, Incêndios e Homem Duplicado, além de Sicario, esta, talvez, sua única obra menor.

Apesar da escuridão, apesar da dominação da publicidade, apesar da depressão, haverá vida. Saem a falsa meritocracia do capitalismo, o falso american way of life e o falso conto burguês para ficar apenas a essência de nossa existência: a chama que nos faz seguir em frente. A memória, que nos empurra dia-a-dia para frente, aliada ao amor à vida, nos faz dar o próximo passo para perpetuar nossa espécie.

Se no filme de 1982 tínhamos replicantes que queriam vencer a morte, aqui temos replicantes que querem salvar o amor. Talvez o sentimento que nos torne realmente humanos. Não é à toa que a arte seja o produto mais carregado de amor que a humanidade já produziu, seja em que campo for.

E nessa trajetória de manutenção da esperança, temos o replicante policial – e blade runner – vivido por Ryan Gosling. Tudo que ele quer é deixar de ser máquina e acreditar que pode sim ser uma vida biológica, com memórias reais que constituem um passado particular e um futuro sem fim determinado. Simpaticamente, ele é chamado de K – numa alusão ao autor do livro, Philip K. Dick, e numa clara referência ao personagem central de “O Processo”, de Kafka.

Nessa poesia de amor à vida, “Blade Runner 2049” olha para a obra original com respeito e muito fanservice, como Hollywood vem fazendo à exaustão. Mas desta vez, de forma não gratuita. Temos de volta o close no olho, o skyline futurista de Los Angeles (agora sem a paisagem recheada de labaredas a la Cubatão), o primeiro replicante brutamontes (aqui numa interpretação sensível e surpreendente de Dave Bautiista), a mulher sensual de cabelos claros e espivitados (sai Daryl Hannah, entra a prostituta), a musa artificial (aqui, uma IA que assume forma física holográfica, mas não tão interessante quanto a Scarlett Johansson de “Her”), a chefia burocrática do departamento de polícia (agora uma mulher, vivida por Robin Wright), o visionário insensível dono da corporação que fabrica os replicantes (aqui, o cego Jared Leto), o policial dos origamis (de novo, Edward James Olmos, agora criando uma ovelha de papel, numa referência ao livro), a replicante Rachel (em imagens originais de Sean Young) e, claro, Rick Deckard, de novo na pele de Harrison Ford, desta vez foragido e isolado numa Las Vegas radioativa e coberta de areia.

Se o cinema é som e imagem, Blade Runner se torna uma lição cinematográfica. O trabalho do gênio Roger Deakins, talvez o melhor fotógrafo da história do cinema, aliado a um design de produção extremamente criativo, criam um novo universo noir-cyberpunk que não só reverencia o filme original mas o amplia com autenticidade e realismo, oferecendo uma obra quase catártica, com momentos antológicos que deverão marcar a sétima arte por muito tempo.

Cito a cena no cabaret de Las Vegas, com Elvis holográfico, o plano da chuva que escorre na janela de Robin Wright, a luta final na água e, claro, uma das cenas finais, com a trilha clássica de Vangelis, “Tears in the rain”. Poderia citar muitas outras. São imagens que imprimem na memória por muito tempo. Para mim, isso basta.

Temos aqui o mesmo mundo do filme de 1982, mas também um novo, 30 anos depois. Resultado difícil de ser alcançado. Visualmente emocionante, o longa nos transporta para um universo onde a nostalgia, a imaginação e os sonhos nos levam pela mão, às vezes nos fazendo esquecer até da história que é contada. Apesar de todo o plástico e metal, toda a artificialidade de um futuro decadente e distópico, temos um frescor e um realismo que nos fazem acreditar que tudo naquela Los Angeles existe. Por mais artificial que o todo seja – e Villeneuve nos lembra o tempo inteiro o quanto aquela sociedade é fake – sentimos, vivemos e respiramos o universo do filme. Isso é raríssimo. Um feito e tanto.

O ritmo lento da narrativa artística contemporânea, com planos longos e silenciosos, e a falsa expectativa de cenas de ação, remetem não só ao longa original de Ridley Scott, mas também à ficção científica máxima do cinema, o “2001” de Stanley Kubrick. Uma verdadeira aula que Christopher Nolan poderia ter com muita atenção, depois do truqueiro – e talvez isso não seja uma crítica – “Interstellar”.

Claro que o roteiro traz alguns tropeços. Claro que o filme embarca na beleza estética, dando importância a momentos que nada ajudam no avanço narrativo. Claro que temos personagens desnecessários. Claro que a contemplação e o silêncio se sobrepõe à história. A obra original tinha tudo isso e mesmo assim se tornou eterna. Muitos criticaram esse ritmo lento e a falta de ação – talvez pessoas que não reconheçam a qualidade do original ou da ficção científica de Kubrick – outros criticaram o machismo e o racismo – valeria um outro texto para questionar o argumento. Tudo bem, não é um filme de massa. E essa é a magia de “Blade Runner”. Foram o debate existencialista, a estética e a trilha sonora (no original, do mestre Vangelis) que tornaram aquela obra tão cultuada, não o roteiro, não a história. Ponto. Aquela não é um primor nem uma genialidade narrativa.

Como “Blade Runner”, “Blade Runner 2049” não é para todo mundo. Não é para todos os gostos.

Por tudo isso, se você odiou ou dormiu naquele filme, vai querer cortar os pulsos nas quase 3 horas de duração deste. Agora, se você exalta o original como um de seus filmes favoritos, prepare-se para chorar e se arrepiar: aquela sensação que você teve ao assistir o filme de Scott será repetida e exarcebada. E este é o grande mérito de Villeneuve.

Numa década em que efeitos especiais gameficados e ritmos alucinantes tentam esconder a falta de criatividade e a infantilização do cinema, Dennis Villeneuve nos apresenta uma obra que nos convida ao mergulho imaginativo e à contemplação. Uma pausa para uma viagem por sonhos e poesia.

Não vou aqui falar em obra-prima, deixo para que o tempo faça seu julgamento. Lembremos que o filme de Ridley Scott foi um fracasso de crítica e público e acabou resgatado – e reverenciado – ao longo dos anos graças às videolocadoras. Veremos como este filme sobreviverá.

O que fica, além das imagens e dos sons, é aquela velha pergunta que, no fundo, todos nos fazemos a cada manhã: por que de fato existimos? Quem sou eu para responder, mas deve ser para viajar em obras de arte como esta. Viva o cinema.

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