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Numa época em que as máscaras de uma sociedade fingida começam a cair uma a uma, como na política, em Hollywood e no jornalismo, se mostra cada vez mais necessário e certo nos atermos ao nosso eu interior e ao que somos de verdade. É o que temos visto nos grandes artistas do momento, aqueles que fazem arte de fato, lidando com questões íntimas que antes eram acobertadas por panos falsos. E isso se amplia para o mercado também. Não é à toa que temos hoje como os dois maiores nomes da música pop nacional uma mulher empoderada e uma travesti.

Com “A Forma da Água”, o diretor mexicano segue a mesma trilha para entregar não só seu melhor filme, mas talvez o mais pessoal. Ali, ele colocou suas duas grandes paixões, sem máscaras nem medos: os monstros e o cinema.

A princípio, o longa parece uma fábula clássica, uma Amelie Poulin revisitada. Não se engane com os primeiros minutos. Pouco a pouco, del Toro mostra ousadia narrativa e imaginativa para criar um conto fantástico bem mais profundo do que parece.

Estão lá a estrutura clássica de três atos em cinco movimentos, a protagonista clara (Sally Hawkins), os personagens dinâmicos que ajudam a resolver a problemática do herói (Richard Jenkins, Octavia Spencer e Michael Stuhlbarg) e o antagonista que irá colocar todos os obstáculos possíveis (Michael Shannon). Há uma narração que introduz as regras do universo: é um conto de fadas. Mas conforme a história avança, percebemos que a princesa não é casta, ela inclusive se masturba em cena, o vilão não é um retrato maniqueísta da maldade, mas resultado da sociedade materialista, e o filme se liberta sem medo algum de inovar e surpreender.

Levando a produção para o passado, durante a Guerra Fria, del Toro nos engana. O que parece uma nostalgia de uma época em que as coisas pareciam mais claras – ao menos é o que os perdidinhos do novo mundo alegam – com todo aquele maniqueísmo da política e narrativas 100% clássica – que imperaram não só no cinema, mas em todos os aspectos da sociedade – se revela um retrato bem mais atual do que parece.

Em “A Forma da Água”, del Toro consegue nos mostrar o quanto as máscaras sempre foram, no fundo, extremamente transparentes, e que hoje, além de não aceitas, estas já não enganam mais ninguém (a não ser aqueles que ainda teimam viver a mentira).

Há espaço para erotismo, para homenagens à sétima arte, para citações a filmes B, para o feminismo, para a igualdade racial e de gênero e também há espaço para críticas ao capitalismo, ao belicismo, ao patriotismo, aos modismos filosóficos, à deturpação da verdade e ao american way of life. Muita, muita coisa num filme só.

A ciência que tanto afastou o homem da natureza, trabalhando pelo individualismo, pelo materialismo e pelo egoísmo, no filme se mostra pronta para virar o jogo e se voltar a sua essência: encontrar harmonia entre o homem e o planeta. Fica a dica.

Uma fábula à primeira vista romântica e infantil, se mostra um manifesto adulto sobre o momento atual. Não há problema algum no diferente, afinal, apesar do capitalismo e da sociedade conservadora sempre tentar nos tornar iguais, somos indivíduos com muitas particularidades distintas. Como del Toro em relação ao cinema: é sim um diretor que gosta de monstros e de sangue, mas nem por isso não sabe tratar de poesia e do amor.

Tem sido lindo ver artistas alcançarem o auge sendo verdadeiros. E, como eu disse antes, é isso que o mundo pede a cada um de nós, não importa qual seja nossa área de trabalho.

Não é à toa que este, provavelmente, será o quarto ano em cinco em que o cinema americano dará seu maior prêmio para um diretor mexicano. Simbólico. Ja tivemos Alfonso Cuarón, com Gravidade, e Alejandro Gonzalez Iñarritu duas vezes, com Birdman e O Regresso. Chegou a vez de Guillermo del Toro. Um cara que consegue falar de amor fazendo poesia com gatinhos decapitados e dedos podres.

Conservadores, torçam o nariz enquanto agonizam. O mundo não é mais de vocês. 😉

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