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Deus vai nos perdoar pelo que fizemos ao mundo? Esta é a pergunta que fica depois de First Reformed, um longa que, apesar de pessimista e de me deixar com aperto no coração, é uma grande obra.

Talvez seja o filme que melhor retrate o mundo de hoje: religiões comerciais, a valorização total do dinheiro acima de tudo, a despreocupação com o meio ambiente e com o futuro da civilização e o pessimismo de quem entende tudo que está realmente acontecendo. Quase uma revolta.

Ethan Hawke, na melhor interpretação de sua vida, vive o padre Toller, um ex-militar que, enganado pelo falso patriotismo e pela tradição familiar, convenceu o filho a se alistar no exército, levando o jovem à morte seis meses depois. O trauma destruiu o casamento e a vida de Toller, que agora busca redenção numa secular igreja turística de uma pequena cidade americana – e em muitas garrafas de whisky. Culpado, se propõe a escrever um diário por 12 meses, antes de o destruir. É quando conhece um ambientalista radical que exige o aborto da esposa por considerar que o mundo não tem salvação ou futuro.

Vivemos um momento de total idiotização da sociedade, seja através das Redes Sociais e Fake News, seja pelo que é valorizado pelo público na indústria cultural: normalmente obras pobres intelectualmente, que servem apenas como escape sem exigir o mínimo de participação mental das pessoas. Basta ver os filmes de maior bilheteria ou as músicas que mais tocam nos rádios. O público médio vai achar este filme um porre.

É como se a maioria das pessoas ou não tivesse noção do que se passa de verdade ou quisesse fugir dessa constatação, se contentando com pouco e com obras que a ajude a desligar do que de fato importa. Ou as pessoas não querem pensar a respeito ou não tem capacidade para isso.

A qualidade artística e a intelectualidade hoje são menosprezadas pela sociedade. Assim como a inteligência. Por isso o desespero do personagem de Ethan Hawke, quando ele sai do trauma de sua bolha pessoal e se vê diante das verdades deste mundo selvagem, desigual e capitalista.

Como o personagem fala logo no começo do longa, a racionalização não é o caminho para entendermos o mundo. Afinal, se formos racionais, entraremos em profundo desespero e medo – como o ambientalista do filme e como parte dos brasileiros nas eleições de 2018 e dos americanos na eleição de Trump. Há a espiritualidade – não a religião. Há a conexão com o todo.

É quando ele racionaliza que se toca da verdade. E se vê diante de algo tão feio e se percebe tão incapaz diante disso tudo que decide tomar uma atitude aparentemente irracional, mas que no fundo é a única arma que ele tem para lutar contra tudo que está errado.

O tão criticado final do filme mostra que uma opção para fugir do racional é seguir nossos instintos. Pena que a maioria da população siga os mais primitivos.

Não surpreende que tenha sido escrito e dirigido pelo mesmo roteirista de Taxi Driver. São filmes irmãos. Um foi o retrato dos anos 70, dos filhotes da Guerra do Vietnã jogados no submundo de uma sociedade violenta. Esquecidos e invisíveis como motoristas de táxi. Aqui, o que temos é uma vítima das guerras capitalistas que, sob o manto do patriotismo escondem a máquina motora de tudo: o dinheiro, por mais sujo que seja.

Ele se vê isolado numa igreja histórica, que carrega nas marcas de bala e no alçapão usado para esconder escravos a verdadeira essência da sociedade – referências históricas vistas hoje apenas como souvenir, que as pessoas olham como a um boné de um ponto turístico. A história, nosso passado e nossa trajetória enquanto civilização, hoje estão esquecidos, a ponto de alguém que questiona a escravidão ou o aquecimento global ser eleito presidente com grande popularidade.

O personagem opta pelo sofrimento, pelo autoflagelo – como muitos de nós que perdemos noites recentemente com insônia, abrindo mão de nossas vidas e de nossos trabalhos diante de um presente tão podre e de um futuro tão feio.

É um filme pessimista. Não há o que fazer, não há caminho. Não temos poder para lutar contra essa engenhoca capitalista que nos destrói com alimentos envenenados, ar e água poluídos e natureza destroçada. Uma das críticas que o personagem recebe no filme é por passar tempo demais no jardim, ou seja, na natureza, quando deveria estar no que o chefe da igreja chama de “vida real”: a politicagem movida pela grana.

Ele tenta se juntar ao status quo usando da violência e da morte para alcançar seus objetivos, até perceber que estará sendo igual àqueles que ele quer punir. Para não nos tornarmos iguais às pessoas que criticamos, não podemos entrar na mesma chave delas. O que o filme sugere é abraçarmos nosso instinto sexual e amoroso, descolado do nosso racional, que sofre com a dura realidade. Se vamos mesmo sofrer, que seja com amor.

Filmaço.

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