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Postei no Insta um comentário de alguém dizendo que se bullying fosse o problema, os atiradores desses crimes hediondos como os de Suzano e da Nova Zelândia seriam sempre gays, trans, gordos, negros, pobres. As pessoas que mais sofrem bullying na infância e na vida. E não são. São sempre brancos. Daí a pessoa explica que o problema está no privilégio: esses atiradores crescem pensando que por serem brancos e de uma classe ok podem ter tudo e, quando não têm, surtam tentando fazer algo marcante, que os coloque no patamar que a sociedade ensinou que era o deles. O de destaque.

Vale um parênteses: não estamos diminuindo o peso que o bullying tem na vida de alguém nem o quanto ele afeta a psicologia da pessoa, a ponto de provocar uma tragédia, estamos apenas tirando o peso que as manchetes dão, saindo da discussão rasa e simplória de que ele, por si só, foi o único causador e nada mais. Fecho o parênteses.

O que me traz pra Terra Plana. Vendo o documentário da Netflix fica bem claro pra mim que a maioria dos terraplanistas não difere muito desses atiradores: brancos com privilégios que cresceram acreditando que se tornariam pessoas com poder, mas diante de suas fragilidades, incompetência e ignorância são colocados à margem de tudo. Com a Terra Plana, conseguem a atenção e o sucesso prometido: participam de eventos, dão palestras, fazem podcasts, se tornam ídolos dentro de suas bolhas. O fato de a Terra ser plana ou não pouco importa pra eles – tanto que suas tentativas de provar a teoria sempre falham mas eles seguem defendendo – o que interessa é pertencer a um grupo, ser aceito e, mais do que isso, valorizado.

O que me traz ao Brasil bolsominion. De certa maneira, defender Bolsonaro e criticar/zoar minorias, o politicamente correto e a nova visão de sociedade (com menos privilégios), é buscar seu espaço de valor, é tomar o posto de destaque prometido pela cultura de massa, é chutar aqueles que – na cabeça deles – estão ocupando seus pedestais. Toda vez que alguém menos privilegiado tem sucesso – um gay, trans, negro, índio – é um tapa na cara do branco privilegiado, mas também uma cobrança e, na cabeça dele, uma humilhação: estão tomando o que é dele “por direito”.

O que me traz para a mídia: ela não sabe alinhar o discurso dos novos tempos, usando as mesmas táticas do passado para tentar controlar a opinião pública e tentar valer seu poder. A dramaturgia, a publicidade e a cultura em geral, assim como o jornalismo, devem repensar seus modelos de discurso que projetam a ideia do herói, do vitorioso, de quem venceu na vida. Ainda mais em tempos de 4a Revolução Industrial, quando tudo isso é ainda mais complicado e improvável.

O que me traz para o agora: não há solução instantânea que cure a doença social que transformou esta civilização num amontoado de loucos perdidos que procuram um mínimo destaque, uma simples fagulha que os faça acreditar que são especiais.

O que me traz para a verdade: somos todos especiais de alguma forma, seja na vida de outra pessoa, seja numa bolha, seja na massa. Acreditar no nosso valor sem sonhar com a aprovação da maioria é, de certo modo, o que nos coloca em destaque no mundo. Pouca gente valoriza realmente quem é, o que já tem ou o que já conquistou.

A cultura do “mais mais mais sempre mais” talvez seja o grande câncer não só do ponto de vista capitalista, ou ambiental, ou social, mas existencial. Talvez seja a dor primária que puxe tudo de horrível que se espalha pela Terra (que não é plana).

Não sou psicólogo nem teórico, estou longe de querer estar certo ou ser o dono da verdade, quero apenas tentar entender o mundo doido em que fui colocado. Porque, como você, também tenho essa sementinha maldita germinando na minha mente e na minha alma. Daí vem a importância da reflexão e do questionamento. No fundo, tudo é bem mais simples: o que a gente tem que buscar é só ser feliz.

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