Era sábado, véspera do segundo turno de 2018. Eu tinha ido pra rua, num bloco político contra o Bolsonaro e a favor do Haddad e da Manu. Marchinhas foram compostas só pra esse evento e muita gente estava fantasiada, com glitter e purpurina. Encontrei amigos, vi famosos de esquerda como o Trajano. Só alegria, amor e esperança. Foi lá que vi a pesquisa do 247 que dava empate técnico. A gente acreditava. A gente queria acreditar. A gente tinha que acreditar.

Depois que anoiteceu, eu que não me considero religioso, mas espiritualizado, eu que fui criado como católico, mas que hoje não me defino, me vi nas escadarias da Praça Roosevelt voltadas para a Consolação, ao ar livre e cercado por mulheres, negros e sorrisos. Suplicy, Padilha e outros nomes da esquerda também estavam lá. Um padre celebrou uma espécie de missa na praça e rezamos juntos, sacudindo bandeiras e orando pelo futuro. Chorei.

Assim que terminou, uma tempestade caiu e corremos para a Igreja, onde uma missa oficial era realizada. Ficamos um bom tempo ali, protegidos.

Em dias como hoje, em que alguns insistem em celebrar o terror, em que alguns insistem em espalhar a brutalidade e a imbecilidade, em que a cultura e a inteligência são menosprezadas, eu volto para aquele dia. Eu volto a sentir alegria, amor e esperança. Eu volto a acreditar. Eu quero acreditar. Porque eu tenho que acreditar.

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