Lá vou eu arrumar problema, mas vamos lá. Finalmente assisti “Nós”, novo filme de Jordan Peele, a mesma mente criativa que nos brindou com “Corra”, longa que acho magnífico e que mereceu todos os elogios. Não digo o mesmo sobre este novo.

 

Antes de mais nada, vale apontar a maneira que eu vejo filmes: sem saber uma linha da sinopse, sem ter visto trailer e desconhecendo quase tudo da obra. Faço isso para ter uma experiência mais profunda, acompanhando passo a passo o contar da história. É assim que vejo aquelas que funcionam e aquelas que se perdem, como é o caso aqui. Portanto, eu não fazia ideia dos duplos, dos assassinatos etc. Só sabia que seria de terror porque já tinha visto “Corra”.

 

Bom, Peele é capaz de criar momentos assustadores e inquietantes, situações estranhas que trazem um misto de interesse e medo. Tudo verdade. Pena que se perca em ideias criativas sem nexo. A começar pelo plot twist, um dos mais previsíveis que já vi no cinema e que você mata logo de cara. Risível.

 

Mas o que mais me incomodou foi toda a situação criada de forma gratuita. Não tenho problema algum com finais em aberto ou narrativas que não se explicam – estão aí “Os Pássaros” e “A Estrada” que gosto demais – tenho problema com quebra-cabeças narrativos que criam um universo complexo e instigante mas sem um porquê. Este é o caso de “Nós”.

 

Entendo que o filme trace um paralelo com a situação dos EUA. Isso está claro não só no título original (“Us” = “Nós” ou “United States”) como também no momento em que os duplos, ao serem questionados sobre quem são, respondem: “americanos”. Mas precisava, no mínimo, de um roteiro que respeitasse o público, o que não acontece aqui.

 

Comecemos com a metáfora óbvia do longa de que o problema real não é exterior, mas interior: nós mesmos e nossas sombras. Em vez de jogarmos toda a culpa para o outro devemos analisar nós mesmos e nossas atitudes. Bem básica e fácil de compreender. Seria bom se tivesse ficado só aí, mas não, Peele queria mais.

 

Gosto do uso das tesouras (um objeto de dois lados iguais, mas que são opostos); gosto da dualidade da presença do número 11; gosto do uso de espelhos; gosto do plano da aranha de plástico com a aranha real. Mas já não gosto tanto da referência óbvia a “Alice no País das Maravilhas”, quando a protagonista desce o buraco rumo ao bunker e encontra uma série de coelhos soltos, além de ouvir a frase de que todos ali são doidos; também não gosto de como ele dosou humor e terror, pra mim não funcionou e praticamente tirou meu medo de todas as cenas.

 

Vejo também uma crítica ácida ao papel masculino. Todos os pais de família são problemáticos e idiotas em comparação a suas esposas: o do passado é relapso, o negro do presente é fraco e covarde e o branco é um janota materialista. De novo, óbvio e didático demais, por mais que seja algo que normalmente não vemos na tela.

 

Como eu disse, é bem clara a referência às inquietações do governo Trump nos EUA – e que se parecem muito com as do Bolsonaro no Brasil. Mas ele pouco fala sobre o problema real ou mesmo religioso que muito tem a ver com esse caos – a única citação à Bíblia é Jeremias 11:11, bem sutil para alguém que, nas outras críticas, trabalha na chave do óbvio.

 

Há quem diga que ele não explique tudo aquilo porque o surgimento de Trump e Bolsonaro não têm explicação, o que discordo totalmente. Há várias, bem plausíveis. Ali, Peele não apresenta nenhuma que seja palatável.

 

Ficou bem claro para mim que se trata mais de um problema de roteiro do que de proposta. Ele criou um universo assustador e complicado, cheio de metáforas e referências, e depois não conseguiu amarrar as pontas de forma satisfatória. Por isso, os furos deste roteiro audacioso ficam bem aparentes e o terceiro ato é fraquíssimo, de dar risada de tão ruim. Por exemplo, os personagens tomam atitudes aleatórias: a garota não pede que o vizinho que reclama que subiram no carro dele chame a política; a mãe larga o marido machucado e a filha à mercê de assassinos para correr atrás do outro filho; a protagonista toma decisões e vai a lugares simplesmente porque o roteirista quis etc.

 

Legal, o roteiro é cheio de críticas e metáforas, atira para todos os lados, mas como cinema é muito fraco, com falhas demais para o meu gosto enquanto espectador. Me senti um idiota.

 

Peele perde tempo com explicações didáticas e que não funcionam, além de muitas cenas sobre o subterrâneo, tentando teorizar ou trazer algum sentido, mas sempre se perde no meio do caminho e termina por não trazer nenhum motivo para tudo aquilo. O pouco de teoria que ele apresenta não funciona numa reflexão de poucos segundos. Pensa um pouco que você vai ver. Não funciona.

 

Achei chato, besta e não me deu medo. Como eu disse, achei uma metralhadora de metáforas e temas, tentando abraçar muitas discussões e conseguindo, de verdade, bem poucas. Decepcionante – e olha que eu nem sabia que ele vinha sendo aclamado pela crítica. É tanta informação e tanto truque narrativo que tudo se dissolve num emaranhado de ideias sem explicação. Shyamalan e Nolan são truqueiros que sabem enganar o público e esconder a técnica; aqui, Peele deixou tudo muito exposto e à mostra. Ele é muito talentoso, claro que sim, terá uma longa carreira e eu provavelmente irei adorar toda a obra dele. Mas “Nós” está para Peele assim como “Topázio” está para Hitchcock, ou “Os Amantes Passageiros” está para Almodóvar. Acho que deu pra entender.

 

Sou com “Nós” uma voz dissonante da maioria, assim como fui com “Mãe!” de Aronofsky e que hoje já foi – ainda bem – completamente esquecido por todos. Quem ainda lembra daquela bomba elogiada pela maioria? Ridículo de ruim.

 

Quer ver um filme aterrorizante sobre bandidos dentro de casa e que mistura ironia e sarcasmo com muito horror? Fique com os dois “Funny Games” do mestre Michael Haneke e esqueça “Nós”. Ali sim estamos falando de terror de verdade e de uma discussão mais profunda e criativa sobre violência e sociedade. Ao menos é o que eu acho, e você?

 

 

 

 

 

 

 

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