Camelos nadavam no oceano, eu voltava, e camelos nadavam no oceano. Não havia dúvidas de que o vídeo era verdadeiro, e ele mostrava camelos que nadavam no oceano.

O barco onde estava a câmera mostrava primeiro manchas amarelas no mar, depois se aproximava e comprovava: camelos nadavam no oceano.

Eu nunca tinha ouvido falar naquilo, lembrava só da propaganda da Coca-Cola que me mostrou algumas vezes que elefantes nadavam no oceano, mas, camelos, nunca.

Camelos são do deserto. De uma terra seca. Se você juntar alguns deles pode até trocar por uma mulher, dizem. Mas camelos não nadam no oceano.

Daí liguei a TV. Vi a Amazônia em chamas pelo incentivo brincalhão de um presidente que tirava sarro em rede nacional dos pais de pessoas com cargo de poder, rindo porque eles haviam sido torturados e mortos por ditaduras militares imbecis da América Latina.

No celular, recebi a foto do jovem negro que foi chibatado pelos seguranças de um supermercado de São Paulo por ter roubado um chocolate. E a foto de um segundo jovem, que também foi chicoteado pelas mesmas pessoas e no mesmo lugar.

A tortura está voltando a fazer parte da rotina desse país, pensei.

Lembrei do negro morto por asfixia também num supermercado, mas este do Rio, e juntei as pecinhas: então esta é a ditadura do século XXI? Ou nas anteriores a gente também só percebeu aos poucos e quando já era tarde demais?

A Preta, liderança do movimento sem-teto, segue presa. Há três meses. E ninguém sabe explicar por quê. Lula também está na cadeia. Há mais de quinhentos dias.

Foi aí que me bateu forte: camelos nadam no oceano? Mas e se não forem camelos? Eu só via a cabeça, bem clara e nítida, o movimento das patas, debaixo d’água, e a mancha do corpo, esta turva e embaçada. Eu não enxergava detalhes. Eu não tenho mais certezas. E se forem dromedários?

Anúncios