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Foi ontem. Wagner Tiso e Maria Bethânia dividindo o mesmo palco. Na primeira vez que vi o pianista e maestro ao vivo, eu era uma criança. No meu primeiro show. Do Milton Nascimento. Ela, eu nunca tinha visto. Vi ontem, cantando Gonzaguinha, Arnaldo Antunes, Caetano, Chico, Caymmi. Recitando Fernando Pessoa. Me lembrou minha infância que, graças ao meu pai, foi regada com muita MPB, muita Bethânia, muito Wagner Tiso. Que eu considerava um mestre. Intocável. Me lembrou também meus primeiros anos em São Paulo. Anos de Bom Motivo, Roda Viva, Aki Madrid, Barnaldo Lucrécia. Tempo que já foi, mas que traz boas lembranças. Noite boa. Com belos amigos, belas músicas e uma belíssima voz. Sem falar na champanhe, cortesia da Ikatu Seguros. E rostos conhecidos, espalhados pela platéia, vistos apenas com a luz acesa pós-espetáculo, de fases diferentes de uma vida que vai mudando, se transformando e se recriando de tempos em tempos.

 

Cântico Negro

“Vem por aqui” — dizem-me alguns com olhos doces,
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom se eu os ouvisse
Quando me dizem: “vem por aqui”!
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos meus olhos, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali…

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha mãe.

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos…

Se ao que busco saber nenhum de vós responde,
Por que me repetis: “vem por aqui”?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí…

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis machados, ferramentas, e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?…
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos…

Ide! tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátrias, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.
Eu tenho a minha Loucura!

Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios…

Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: “vem por aqui”!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou…
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou,
— Sei que não vou por aí.

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