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Esta é daquelas histórias que fazem a gente morrer de vergonha, mas também de rir. É daquelas histórias que são capazes de enterrar qualquer reputação. Mas a gente não se importa muito com isso, não é?

 

Era mais uma manhã de faculdade, eu estava indo de ônibus para a Cidade Universitária, da USP, porque esta era minha realidade naquele primeiro ano de curso. Fiz baldeação na avenida Cidade Jardim, em frente ao edifício Dracon, e, como sempre, encontrei minha amiga de classe Bruna já dentro do ônibus.

 

Smashing Pumpkins, cinema, cidade de Santos. Nossos assuntos em comum eram os mais variados, mas naquele dia meu pensamento estava focado apenas num lugar: minha barriga.

 

Tudo retorcia e contorcia por lá. Era uma bagunça como eu nunca havia visto. Comecei a ficar gelado e o suor já escorria no meu rosto. Para piorar, aquele ônibus vinha sempre lotado e, como estávamos numa manhã de outono, eu estava vestido para o frio de São Paulo e não para o calor daquele lugar sufocante e apertado.

 

Bruna logo percebeu que havia algo de errado comigo. “Estou com febre, acho”, foi a desculpa que me veio na cabeça. Não, que me veio na boca. Porque minha cabeça estava bem ocupada em controlar meu intestino e imaginar um belo e lindo banheiro com piso de mármore, porcelanato de qualidade e perfume de lavanda.

 

Mas aquela seria uma longa manhã. Totalmente fora da rotina. A avenida que leva para a entrada da USP estava travada como nunca. Foi o pior trânsito que peguei em 4 anos de faculdade. Nada foi tão lento e longo quanto aquele caminho.

 

Eu agarrava o corrimão do teto do ônibus como se fossem as mãos da minha mãe, contorcia o corpo para baixo, girava a cabeça e mal conseguia responder às perguntas da Bruna. Eu estava em pé, como ela, apertado pela multidão, morrendo de calor e suando como poucas vezes na vida. Eu olhava pela janela do ônibus parado e via ruelas residenciais no Butantã. Pensava em puxar a cordinha e descer ali mesmo, correr para uma dessas ruas, sentar no asfalto atrás de um carro e acabar com o meu sofrimento. Eu precisava me livrar daquilo. Mas a vergonha conseguia ser maior que o desespero. O que eu diria para Bruna? E se alguém me visse ali na rua em plena luz do dia? Depois de terminado o serviço, o que eu faria? Seria impossível voltar para um ônibus naquela situação. Que táxi me levaria para casa?

 

Enquanto a dúvida se misturava aos sofrimento e ao medo de não resistir, o trânsito infernal seguia lento como nunca. Soa cômico, mas era um drama épico.

 

Demoramos mais de uma hora até a entrada da USP. Foi quando, finalmente, descobrirmos o motivo de tamanha lentidão. Parece piada, parece inventado, mas infelizmente é a mais pura verdade.

 

O trânsito tinha sido causado por um acidente. Um caminhão tinha derrubado toda a sua carga na entrada da Cidade Universitária. Todo o carregamento estava lá acumulado no asfalto da porta da USP, formando uma enorme montanha. E ela era altíssima. Uma enorme montanha de privadas. Isso mesmo, vasos sanitários. Tudo que eu mais precisava naquele momento estava ali na avenida, quebrado e destruído, provocando o maior trânsito da vida.

 

Em meio aos meus contorcionismos agarrado no cano do ônibus, eu ria da ironia do destino. Eu ria do meu desespero. Mas ria também aliviado, porque passada a montanha de privadas, já estávamos dentro da USP e, por lá, o trânsito fluía sem problemas.

 

Meu intestino continuava revoltado, mas a esperança de chegar até a Escola de Comunicações e Artes era maior. Verdade que a ECA era o último ponto daquela linha. Tínhamos de percorrer quase toda a USP, ir até lá em cima no Hospital Universitário, para depois descer tudo e, finalmente, entrar na avenida da ECA e chegar no último ponto da linha.

 

O ônibus começava a esvaziar e a Bruna já estava sentada. Fui cavalheiro naquele momento de desespero. Eu, ainda agarrado no cano, ainda encurvado e suando, pensava em descer no primeiro ponto, o da Faculdade de Educação, procurar um banheiro qualquer, resolver meu problema, e depois ir andando para a ECA. Seria perfeito. Seria um alívio.

 

Mas quando o ônibus parou na frente da Educação, veio o sol da tempestade. O tempo abriu no meu intestino, as nuvens negras se dissiparam e eu sorri. A dor não estava mais ali e, com ela, o desespero tinha ido embora. Eu estava salvo, não precisava descer na loucura, podia muito bem esperar até a ECA e me aliviar com calma.

 

Ledo engano. Assim que a porta do coletivo se fechou, um tsunami invadiu meu abdomem e a dor veio ainda mais pesada. “Na Química, vou descer na Química”. Mas tudo o que aconteceu na Faculdade de Educação se repetiria na Química e em cada um dos pontos seguintes da Cidade Universitária. Eu decidia descer para usar o banheiro do lugar, mas assim que o ônibus parava, a dor ia embora e, aliviado, eu decidia continuar no coletivo até a ECA. Assim que a porta se fechava, tudo voltava ainda mais forte.

 

Com o ônibus esvaziando, eu já sentava em um dos bancos e agarrava minha mochila enquanto fechava os olhos para segurar as lágrimas. Foi dos momentos mais desesperadores da minha vida, pode acreditar. Mas pode rir também, não tem problema. Se eu que vivi aquilo dou gargalhadas hoje em dia, imagine você.

 

Eu estava preso naquele ônibus, suando e desesperado, e tudo que eu queria era um banheiro. Já não pensava mais em mármore, porcelanato ou lavanda. Eu queria um banheiro. Poderia ser um banheiro de rodoviária. Ou um banheiro rústico de fazenda. Na verdade, um simples buraco no chão já bastava.

 

A Via Crucis foi chegando ao fim até que entramos na avenida da ECA. Eu estava salvo. Havia resistido ao trânsito, às paradas, ao suor, ao desespero. Agora, era só entrar na minha faculdade, me aliviar e sorrir por toda a eternidade.

 

O ônibus parou. A porta abriu. Bruna se levantou. Eu virei o rosto e vi a ECA do lado de fora. O sol batia no jardim e a sombra das flores desenhava uma textura interessante na calçada. Observei os detalhes daquelas silhuetas. Observei a fachada da faculdade. Vi ali minha salvação. O fim da minha angústia. E me levantei.

 

Levantei e perdi o controle, meus amigos. Ali, dentro do ônibus. Em pé. Pronto para descer e entrar na ECA, eu fui derrotado. Todo o esforço havia sido em vão. Liberei toda a minha dor de uma só vez. Em rápidos segundos.

 

Mas não perdi a pose. Andei como se nada tivesse acontecido, desci as escadas e me juntei à Bruna ali do lado de fora. Eu estava com pressa. Não prestei atenção no cheiro, não prestei atenção na minha calça de moleton. Acelerei o passo e disse pra minha amiga que eu tinha de dar um pulo na diretoria. Nos afastamos na hora. Ela para a esquerda, rumo ao Centro de Jornalismo e Editoração. Eu, em linha reta, para o prédio principal da ECA.

 

Subi a escadaria com pressa e a mochila bem baixa, cobrindo minha bunda. Eu pulava os degraus, subindo de dois em dois. Corri direto para o banheiro masculino, pensando em lavar minha roupa, meu corpo e me livrar de qualquer coisa que restava em mim. Mas quando coloquei a mão na maçaneta, a porta estava trancada. Sim, senhoras e senhoras, meu desespero e minha humilhação ainda não tinham chegado ao fim. O banheiro masculino estava fechado. Trancado. Selado. Isolado. E eu estava literalmente na merda.

 

Não pensei nem por dois segundos. Me virei para a porta do sanitário feminino e entrei. Estava aberto. Um enorme banheiro, com várias cabines e muitas pias.

 

Já fui arrancando a roupa e jogando a cueca no lixo. Ali, no meio do banheiro. Não quis nem entrar numa cabine. Nem tentei trancar a porta do lugar. Fiquei pelado, nu, em pleno banheiro feminino, correndo o risco de alguma garota entrar e me pegar no flagra. Mas eu já estava humilhado o suficiente. Já tinha sofrido demais. Não era possível que o roteirista da minha vida fosse preparar mais alguma pegadinha.

 

Eu praticamente tomei banho ali, em pé, e lavei minha roupa como nem minha empregada conseguiria.

 

Saí como se nada tivesse acontecido, fui até um orelhão – sim, estamos falando de 1998 – e liguei a cobrar para a salvação. “Oi, mãe, sou eu”. Bastaram apenas estas quatro palavras para ela descobrir o que havia acontecido. Não sei como, não sei por quê, a primeira coisa que ela disse, em resposta ao meu cumprimento, foi perguntar se meu intestino tinha soltado.

 

Deitei no banco de um ponto de ônibus que tinha por ali e lá fiquei esperando minha mãe. Claro que ela pegou o mesmo trânsito que eu. Claroq que ela demorou mais de uma hora. Claro que ela chegou rindo, do monte de privadas, mas também da cena: eu deitado, coberto por moscas. Claro que eu deitei de bruços no banco de trás do carro. Claro que eu tomei um dos banhos mais longos da minha vida quando cheguei em casa. E claro que o professor faltou naquele dia. Eu nem precisava ter ido para a aula, eu nem precisava ter tentado chegar na ECA, nem precisava ter sofrido tanto.

 

Mas, se eu não tivesse ido para a USP naquele dia, este texto não existiria. E você não estaria doido para me mandar uma mensagem para tirar sarro deste momento de humilhação e sofrimento.

 

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Um pensamento em “Esse dia foi muito cagado

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