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Fui a trabalho para Cincinnati, em Ohio. Cidade aproximadamente com o mesmo número de habitantes da nossa São José dos Campos, mas obviamente muito mais rica. Com uma Downtown bonita, organizada e bem estruturada, porém vazia e triste, Cinci – como ela é conhecida por lá – é daquelas cidades americanas feitas para carros. É repleta de grandes estacionamentos (um deles, na margem concretada e inclinada do Rio), highways e lindas pontes de ferro. E é uma dificuldade enorme conseguir um táxi.

A bordo de um deles, a caminho do hotel depois de uma reunião, deparei-me com a fachada de um grande teatro local, o Taft Theater. Ali, naquelas antigas placas de cinema brancas, onde se encaixam as letras pretas da atração em cartaz, vi o anúncio de uma banda que eu adoro – e que nunca veio e dificilmente virá ao Brasil. Óbvio que comprei o ingresso e lá fui eu, com minha amiga Dani Keller (amiga, viu, Dani, não colega de trabalho), ao show do Polyphonic Spree.

Ao chegarmos no local, em cima da hora porque estávamos num jantar com clientes, veio o desespero. A fachada do Taft Theater estava totalmente apagada, todas as portas fechadas, tudo escuro e silencioso. “Você não olhou o dia errado? O show não era em setembro?”. Não, confirmei olhando o ingresso. 21 de agosto, data correta. Foi quando um senhor, meio mendigo, meio flanelinha (eles existem nos EUA?) sinalizou pra gente uma pequena porta mais à frente, indicando por onde deveríamos entrar.

Entramos, mostramos o ingressos e fomos parar numa espécie de corredor largo de High School de filme americano, com uma bomboniere onde uma garota simpática vendia bebidas. Poucas pessoas estavam por ali. “O show já deve ter começado, tá todo mundo lá dentro”. Descemos algumas escadas e chegamos ao lugar do show.

Piso de carpete. Papéis crepon de decoração. Tudo meio capenga, meio escuro, meio velho. Tudo meio triste, abandonado e depressivo. Parecia um daqueles lugares de peça infantil de escola que vemos em filme americano. A platéia, completamente esvaziada, era formado de gente mais velha – cabelos brancos, mesmo – e muito gordas. O verdadeiro clichê do típico americano do interior.

Uma banda – provavelmente local – ainda fazia o show de abertura. Imaginei que o local estava vazio – juro, não havia mais de 50 pessoas! – porque a atração principal ainda não tinha começado. Mas logo que o Polyphonic Spree entrou no palco, atrás de um pano branco (onde pichou do lado de dentro do palco, com as letras invertidas para que nós lêssemos do lado da platéia, “Glad to be here”) nada mudou. Aquele seria o público da noite inteira.

E aquelas 50 pessoas estavam espalhadas por aquele galpão acarpetado e escuro. Não estavam grudados no palco. Havia muito espaço por ali.

O show foi espetacular – com harpa, violino e violoncelo, com toda a banda vestindo túnicas hippies e um coral de “virgens” ao fundo. E a pequena platéia de velhos gordinhos permaneceu na mesma quantidade. De vez em quando, eu ia até a tal bomboniere do lado de cima comprar diferentes cervejas locais. No meio do show, numa dessas idas, reparei que havia uma lojinha com objetos da banda à venda, sem ninguém tomando conta. E o bar estava fechado. Pois é, em pleno show, o bar de bebidas tinha encerrado os trabalhos. O andar todo estava vazio, só a lojinha da banda estava acesa e sem ninguém. Era o retrato da depressão.

Voltei pro show, o vocalista desceu pra platéia, pediu para todos sentarmos – santo carpete! – e ele se sentou também, fazendo um pocket show bem bacana. E os gordinhos, emocionados, cantando junto.

O vocalista voltou para o palco, pegou o celular de uma fã e fez um selfie vídeo que deve ter ficado incrível, mas que a mocinha ainda não postou no YouTube. Um verdadeiro clipe ao vivo.

Encerrada a apresentação, a pedido das senhorinhas e barbudos que estavam trabalhando no local como seguranças e organizadores – posso jurar que eram voluntários da comunidade – fui até a lojinha, onde as virgens do coral me venderam dois LPs por 40 dólares. Recusei a oferta de pagar mais 10 e levar uma camiseta.

Saímos daquele lugar abandonado e vazio, levando um belíssimo show na memória, mas a sensação de que viver naquela cidade deve ser uma das coisas mais depressivas de todas. Preferia ter visto o Polyphonic Spree no Cine Jóia. E agradeço por viver numa cidade como São Paulo.

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Um pensamento em “Polyphonic Spree: a experiência de ver um show em Cincinnati

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